9.1.08

Consummatum


Queria que chegasses, finalmente,
numa manhã qualquer,
- estrela fria de alva ou sol ardente
cujo sorriso bom
me pudesse prender...
Que tivesse o dom
de me encantar e conter
- que valesses o mundo
que sonhei ter...

... Renunciar inteiramente
a esta luta de viver mil vidas.
Que tu fosses o fim que mais cobiço,
se afinal
esse fim existisse
e continuasse sempre igual...

... Para
depois de ter-me libertado
e morto assim o nomadismo inquieto
do meu mundo interior
-minha ânsia de descobrir qualquer coisa melhor -
e destruído por amor a ti
todos os parasitas de oiro e fogo
da eternidade que vivi;

e livre finalmente
com a alma nua e o espírito nu
e um destino e um caminho e um desejo só
e uma só realidade
que és tu
e após a confidência fatigada
(curvado sobre ti como à beira dum abismo):
«Só te esperava para te renunciar!»
dar-te o último soluço que eu não pudesse conter,
e (como a um mundo que acabasse sem paroxismo)
contemplar
sem Saudades, a Mim-mesmo acabado de morrer!...


Manuel Lopes (poeta caboverdiano)