6.1.08


Poemas para um tocador de quissanje


1

Leio nos teus olhos
a minha infância
como quem olha um retrato
envelhecido e mudo...

Os teus olhos parados
claros de luas passadas
não são mais que pedras frias
onde perpassam cacimbos...

... no entanto leio neles
todo esse mundo querido
de mistérios
assombrações

e receios
claras manhãs de Janeiro
calor de todos os jangos
verdes capins sorrindo...

Falam de noites da vida
vidas da vida falando
na linguagem de um quissanje


2

Eras o maior
dos tocadores de quissanje...

Vinham gentes
e paravam...
ao luar de frios ventos
de jangos mudos
e as mulembas
não embalavam
as folhas...

Na longa noite do tempo
inda se escutam e choram
teus acordes de quissanje
mensagens de além perdido.


3

... e vinham
das distâncias
eram das terras da lunda
e os regressados das ilhas
e as crianças que não iam
muito p'ra além dos luandos
e das portas
e eram velhas
cachimbando
junto às fogueiras
sem lenha
e vinham todos...

Alongava-se na noite
canto de escravos passados
vozes de contratados
o teu quissanje dolente...


4

... as velhas já não choravam
filhos perdidos no mar
e as crianças não choravam
a fome dos ventres grávidos
e as mulheres já não choravam
homens levados de noite
em cargas silenciosas...
e as lavras já não choravam
e as estradas
e os mares
suor dos ombros cansados
e os homens
já não choravam
já não choravam
já não choravam
Calavam.


5

Havia conchas de mar
múcuas e pitangueiras
falas de gentes quiocas
vozes de terras ganguelas
gritos de homens cuanhamas
ó amor de jovens luenas
e lendas de mucubais
inconformadas presenças
pairando em cada silêncio
em cada vagem que seca
como promessas de pão feitas fome
na realidade diária.

Havia
havia
havia
humanidades de espera
como promessas de pão


Costa Andrade (poeta angolano)