26.2.08

O Mundo é grande


O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.


Carlos Drummond de Andrade


Em torno da minha baía


Aqui, na areia,
Sentada à beira do cais da minha baía
do cais simbólico, dos fardos,
das malas e da chuva
caindo em torrente
sobre o cais desmantelado,
caindo em ruínas
eu queria ver à volta de mim,
nesta hora morna do entardecer
no mormaço tropical
desta terra de África
à beira do cais a desfazer-se em ruínas,
abrigados por um toldo movediço
uma legião de cabecinhas pequenas,
à roda de mim,
num voo magistral em torno do mundo
desenhando na areia
a senda de todos os destinos
pintando na grande tela da vida
uma história bela
para os homens de todas as terras
ciciando em coro, canções melodiosas
numa toada universal
num cortejo gigante de humana poesia
na mais bela de todas as lições
HUMANIDADE.


Alda do Espírito Santo (poetisa sãotomense)

25.2.08

Timidez


Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

e um dia me acabarei.

Cecília Meireles (poetisa brasileira)


Dá-me a tua mão


Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.


Clarice Lispector (poetisa brasileira)


Resignação


Da resignação nada sei.
O mar está encapelado
sou um barco.
Guardo os sapatos, fecho as portas
passeio à chuva.
Espero o vento
há que colher os frutos.

Tu descansas serenamente
folha leve, por terra
fim de cacimbo

Os heróis não voltam.
Dormes, não queres estar vivo.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)


Louvação da cidade do Rio de Janeiro


Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.
Louvo o santo padroeiro
- Bravo São Sebastião -
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.

Louvo a Cidade nascida
No morro Cara de Cão.
Logo depois transferida
Para o Castelo, e de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores
Grande Rio de Janeiro!

Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros...
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá.)

Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.


Manuel Bandeira (poeta brasileiro)


Não mais sob a árvore de Bô


Não mais a pureza de Ramahyana
o incenso e o sândalo

os pés nus nas pedras do templo

enquanto eles comerem na minha mesa
na velha casa de Dili
não mais me sentarei sob a árvore de Bô


Jorge Lauten (poeta timorense)


Poema do pacto de sangue


Nobres há muitos. É verdade.
Verdade. Homens muitos. É muito verdade.
Verdade que com um lenço velho
As nossas mãos foram enlaçadas.
Nós, como aliados, eu digo.
Panos, só um, tal qual afirmo.
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Agua de Héler! Pelo vaso sagrado!
Nunca esqueça isto o aliado.
Juntos, combater, eu quero!
Com o aliado, derrotar, eu quero!
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Poderemos, talvez, ser derrotados
Ou combatidos, mas somente unidos.



Ruy Cinatti (poeta timorense)


Rosa Rosae


Rosa
e todas as rimas
Rosa
e os perfumes todos
Rosa
no florindo espelho
Rosa
na brancura branca
Rosa
no carmim da hora
Rosa
no brinco e pulseira
Rosa
no deslumbramento
Rosa
no distanciamento
Rosa
no que não foi escrito
Rosa
no que deixou de ser dito
Rosa
pétala a pétala
despetalirosada


Carlos Drummond de Andrade (poeta brasileiro)

Os Vínculos Portugueses

Meu irmão, meu irmão branco,
de cor, como eu também!
Aceita a minha aliança.
Bebe o meu sangue no teu.

Se te sentires timorense,
bebe o teu sangue no meu.

Lenço enrolado nas mãos,
apertadas, pele na palma.
Não o quero maculado.
Quero-lhe mais que à minh´alma.

É penhor de uma aliança.
Quero-lhe mais que à minh´alma.

Tenho o meu coração preso
a um símbolo desfraldado;
um desenho atribuído,
pelas minhas mãos hasteado.

Não piso a sombra de um símbolo
pelas minhas mãos hasteado.

No Tata-Mai-Lau aprendo
alturas que ninguém viu
na terra de Português.
Hasteei-lhe uma bandeira.

Timor deu volta ao mundo.
Hasteei nele a bandeira.


Ruy Cinatti (poeta timorense)


Segredo


A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.


Carlos Drummond de Andrade (poeta brasileiro)

24.2.08


A sombra das galeras


Ah! Angola, Angola, os teus filhos escravos
nas galeras correram as rotas do Mundo.
Sangrentos os pés, por pedregosos trilhos
vinham do sertão, lá do sertão, lá bem do fundo
vergados ao peso das cargas enormes...
Chegavam às praias de areias argênteas
que se dão ao Sol ao abraço do mar...
... Que longa noite se perde na distância!

As cargas enormes
os corpos disformes.
Na praia, a febre, a sede, a morte, a ânsia
de ali descansar
Ah! As galeras! As galeras!
Espreitam o teu sono tão pesado
prostrado do torpor em que mal te arqueias.
Depois, apenas pestanejam as estrelas,
o suplício de arrastar dessas correias.

Escravo! Escravo!

O mar irado, a morte, a fome,
A vida... a terra... o lar... tudo distante.
De tão distante, tudo tão presente, presente
como na floresta à noite, ao longe, o brilho
duma fogueira acesa, ardendo no teu corpo
que de tão sentido, já não sente.

A América é bem teu filho
arrancado à força do teu ventre.

Depois outros destinos dos homens, outros rumos...
Angola vais na sede da conquista.
Hoje no entrechoque das civilizações antigas
essa figura primitiva se levanta
simples e altiva.
O seu cântico vem de longe e canta
ausências tristes de gerações passadas e cativas.
E onde vão seus rumos? Onde vão seus passos?
Ah! Vem, vem numa força hercúlea
gritar para os espaços
como os dardos do Sol ao Sol da vida
no vigor que em ti próprio reverberas:

- Não sou cativo!
A minha alma é livre, é livre
enfim!
Liberto, liberto, vivo...

Mais... porque esperas?
Ah! Mata, mata no teu sangue
o presságio da sombra das galeras!


Alexandre Dáskalos (poeta angolano)


Para lá da praia


Baía morena da nossa terra
vem beijar os pézinhos agrestes
das nossas praias sedentas,
e canta, baía minha
os ventres inchados
da minha infância,
sonhos meus, ardentes
da minha gente pequena
lançada na areia
da Praia Gamboa morena
gemendo na areia
da Praia Gamboa.

Canta, criança minha
teu sonho gritante
na areia distante
da praia morena.
Teu teto de andala
à berma da praia.
Teu ninho deserto
em dias de feira.
Mamã tua, menino
na luta da vida
gamã pixi à cabeça
na faina do dia
maninho pequeno, no dorso ambulante
e tu, sonho meu, na areia morena
camisa rasgada,
no lote da vida,
na longa espera, duma perna inchada
Mamã caminhando p'ra venda do peixe
e tu, na canoa das águas marinhas ...

— Ai peixe à tardinha
na minha baía...
Mamã minha serena
na venda do peixe.


Alda do Espírito Santo (poetisa santomense)

22.2.08

Passagem do ano


O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,

Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


Carlos Drummond de Andrade (poeta brasileiro)



O auto-retrato


No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

Mário Quintana (poeta brasileiro)


O tempo passa, o amor cresce


Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.


Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.


Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.


E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.


Vinicius de Moraes


21.2.08

Lavadeira

Banco raso
Celha cheia

Mãos pretas em roupa branca


Silenciosa a lavadeira

Pende a frente num trama longo.

Carrega um mundo o fumo denso

Da boca muda baforado.


Ao lado

As moscas enxameiam a boquita entreaberta

Do seu filho adormecido



Arnaldo Santos (poeta angolano)
Redenção


Vento fótchi na bilá soplá fá…
É noite e chove no fundão!

Tudo funca-funca di Vila
Tudo niguê Santana

Tudo niguê Guadalupe

Tudo niguê Gamboá

Canta e dança o socopé…

Ao romper da manhã

Mesmo ao pé de uma jaqueira

Cada par negro sorrirá ao Sol

Com mãos fartas de ginguba!



Onésimo Silveira (poeta caboverdiano)
Poema

Eis-nos aqui no caminho
Traçado por nossa mão.
Cada braço traz o punho

e cada punho um punhal.

Bandoleiros na vida,

vida errante era o destino!
Nas costas nasceram traços

da vida dura sem pão.

Rugas dos covais da vida

cemitérios da ilusão!...
Mortos, mortos, mas com vida

quase à beira do chão.
Quase à beira do chão

rastejantes, vermes, podres!...

Pobre miséria do mundo

só o dinheiro é patrão.

Só o dinheiro é patrão

dos vermes sujos do chão
Cada verme traz um punho

com uma faca na mão.


Alexandre Dáskalos (poeta angolano)

Testamento


À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida,
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda…
este meu rosário antigo,
oferece-o àquele amigo
que não acredita em deus…
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada…
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu Amor…

Para que, na paz da hora,
em que a minha lama venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora…
com passos feitos de lua
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua…


Alda Lara (poetisa angola)


video


Estrela Subversiva



Há uma bela e sonâmbula estrela
Escondida na noite escura sem esperança.
Algures, acima ou abaixo de nós,
Talvez num charco qualquer,
Quem sabe nos olhos de toda a Mulher
Quem sabe nos dedos de toda a Criança...


António Cardoso (poeta angolano


Poesia



Não faço mais nada!
Estou farto de rima
Fisgada
Em cima, em baixo,
Ao lado.

Estou fatigado:
Não há poema que valha
Um raio de sol,
Pão na toalha,
E uma mulher no lençol!...

António Cardoso (poeta angolano)
Comboio africano



Um comboio
subindo de difícil vale africano
chia que chia
lento e caricato

Grita e grita

quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou

Muitas vidas
ensoparam a terra
onde assentam os rails
e se esmagam sob o peso da máquina
e no barulho da terceira classe

Grita e grita

quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou

Lento caricato e cruel
o comboio africano…


Agostinho Neto (poeta angolano)


Poema ancestral


Lembra os dias antigos
Em que cantavas a pureza
Na nudez dos teus passos e gestos
Ou dançavas na inocente vaidade
Ao som dos «babadok».
Relembra as trevas da tua inquietação
E o silêncio das tuas expectativas,
As chuvas, as memórias heróicas,
Os milagres telúricos,
Os fantasmas e os temores.
Tenta lembrar a herança milenar dos teus avós
Traduzida em sabedoria
E verdade de todos.
Recorda a festa das colheitas,
A harmonia dos teus Ritos,
A lição antiga da liberdade,
Filha da natureza.
Recorda a tua fé guerreira,
A lealdade,
E a ternura do teu lar sem limites,
Nos caminhos do inesperado
Ou no improviso da partilha definitiva.
Lembra pela última vez
Que a história da tua ancestralidade
É a história da tua Terra Mãe...


Crisódio Araújo (poeta timorense)

Vou ser senhor do mundo


Vou falar com o Pássaro-Rei,
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
para eu voar
e ir poisar no teto do mundo.

Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro,
em senhor da terra,
senhor das águas,
senhor dos céus,
senhor do Mundo.

Mas é se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no teto do Mundo.

E porquê ele não me faz o favorzinho,
se lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: — Por favor?



Jorge Barbosa (poeta caboverdiano)

Memória



Baloiçando nos escombros de teu itinerário
saberás que os gados constroem estradas.
E quando a mão deslizar pela margem
das cicatrizes que se afundam na noite
saberás que a tua mão viaja para a
colina dos dias sem escombros
e saberás que no berço da noite jaz a luz
drogada e ouvida pela cruz sobre quem viajaste.

João Maimona (poeta angolano)

Canto para Angola


Hei-de compor um dia
um canto sem lirismo
nem tristeza
digno de ti, ó minha terra.


Hei-de compor um canto
livre e sem regras
que de boca em boca vai partir
nos lábios dos velhos e meninos.


Será o canto do pescador
com todos os sons dos mar
com os gemidos do contratado
nas roças de São Tomé.


Será o canto de todos os dramas
do algodão do Lagos & Irmão
o das tragédias nas minas
da kitoka e da Diamang.

Será o canto do povo
o canto do lavrador
e do estudante
do poeta
do operário
e do guerrilheiro
falando de toda Angola
e seus filhos generosos.

(Assim se fez madrugada)


Joffre Rocha (poeta angolano)

Eterna sentinela



Abandonado e só,
o Imbomdeiro,
figura milenária do sertão,
tem a dolorosa expressão
de quem foi condenado
por toda a vida
a sofrer na costa de África
o seu destino maldito.

Não conhece os milagres do amor,
e junto a si jamais teve o carinho
ou a ternura saudável
da mais humilde flor.

Imbondeiro desgraçado,
filósofo triste e pensativo,
filósofo da paisagem,
mártir e santo que alguém tivesse encontrado
no inferno de Dante
e conduzisse a este sol abrasador:

- Tu és a estátua gigante
da minha dor!

Tomás Vieira da Cruz (poeta angolano)
Dois Momentos



Tenho meus olhos fitos em frente
Onde mora o futuro,
E altos, erectos,
Bem por cima do Muro…

Sou como toda a gente:
Tenho momentos aflitos
E afectos.
E canto (produzo) e perduro,
Mesmo cheio de espanto…

António Cardoso (poeta angolano)

Miserere



Perdoai-me Senhor!

Perdoai-me, que eu não sabia...


No meu palácio

batido por todos os mares de coral,

encastoada em espumas,

e rendas,

e ouropéis,

coberta de cetins e de anéis,

no meu palácio de ilusão

onde cantam sereias pela noite dentro,

Senhor!

eu não sabia nada...


Foi preciso que o céu se cobrisse

de nuvens negras,

e a tempestade sacudisse

a solidão dos meus salões,

para que eu, transida de medo,

descesse aos subterrâneos do meu palácio,

em busca de protecção

e calor...


E nos subterrâneos...

só encontrei dor maior que a minha...

medo maior que o meu...

e loucura,

e suor,

e fome,

e ódio frio,

e revolta surda,

e o cheiro putrefacto dos corpos

que trouxe a maresia...


Ah! perdoai-me Senhor!

Perdoai-me...

que eu não sabia...



Alda Lara (poetisa angolana)





Quissange - Saudade Negra



Não sei, por estas noites tropicais,

o que me encanta...

Se é o luar que canta

ou a floresta aos ais.

Não sei, não sei, aqui neste sertão

de musica dolorosa

qual é a voz que chora

e chega ao coração...


Qual o som que aflora

dos lábios da noite misteriosa!


Sei apenas, e isso é que importa,

que a tua voz, dolente e quase morta,

já mal a escuto, por andar ausente,

já mal escuto a tua voz dolente...


Dolente, a tua voz "luena",

lá do distante Moxico,

que disponho e crucifico

nesta amargura morena...


Que é o destino selvagem

duma canção em que tange,

por entre a floresta virgem

o meu saudoso "Quissange".


Quissange, fatalidade

deste meu triste destino...

Quissange, negra saudade

do teu olhar diamantino.


Quissange, lira gentia,

cantando o sol e o luar,

e chorando a nostalgia

do sertão, por sobre o mar.


Indo mares fora, mares bravos,

em noite primaveril

acompanhando os escravos

que morreram no Brasil.


Não sei, não sei,

neste verão infinito,

a razão de tanto grito...


-Se és tu, oh morte, morrei!


Mas deixa a vida que tange,

exaltando as amarguras,

e as mais tristes desventuras

do meu amado Quissange!


Thomaz Vieira da Cruz (poeta angolano)