21.2.08

Apelo




Na outra margem do rio,
(e eu vejo-a!)
há campos verdes de esperança,
abandonadas ao calor de um sol eterno...
Na outra margem do rio,
onde não chega o inverno,
há campos ondulantes de searas maduras,
para os pobres matarem nelas
todas as fomes do mundo...
Na outra margem,
tudo se começa de novo
e não há dias passados
que amargurem os desgraçados...
Não há dinheiro,
e os homens dão-se as mãos
que pelo dia inteiro
ouvi as canções que os seus lábios entoaram...

Nem raivas mal contidas,
nem agonias perdidas,
nem dor...
Que na outra margem do rio,
há Amor...

......................................

E entre mim, e a outra margem,
esta terrível viagem.
Este rio caudaloso, imundo,
sujo de todos os calhaus,
que nele vomitou o mundo...
Entre mim e a outra margem,
o rio...

Ah! barqueiro
porque tardas?...
Não vês como faz frio?

Espero mas desfaleço...
Não tardes mais barqueiro
não tardes!...
Que é tão longe ainda
a outra margem do rio...


Alda Lara (poetisa angolana)