12.2.08


Inatingível


O que sou eu, gritei um dia para o infinito
E o meu grito subiu, subiu sempre

Até se diluir na distância.

Um pássaro no alto planou vôo

E mergulhou no espaço.

Eu segui porque tinha que seguir

Com as mãos na boca, em concha

Gritando para o infinito a minha dúvida.


Mas a noite espiava a minha dúvida

E eu me deitei à beira do caminho
Vendo o vulto dos outros que passavam

Na esperança da aurora.

Eu continuo à beira do caminho

Vendo a luz do infinito

Que responde ao peregrino a imensa dúvida.


Eu estou moribundo à beira do caminho.

O dia já passou milhões de vezes
E se aproxima a noite do desfecho.

Morrerei gritando a minha ânsia

Clamando a crueldade do infinito

E os pássaros cantarão quando o dia chegar

E eu já hei de estar morto à beira do caminho.


Vinicius de Moraes (poeta brasileiro)