21.2.08

Miserere



Perdoai-me Senhor!

Perdoai-me, que eu não sabia...


No meu palácio

batido por todos os mares de coral,

encastoada em espumas,

e rendas,

e ouropéis,

coberta de cetins e de anéis,

no meu palácio de ilusão

onde cantam sereias pela noite dentro,

Senhor!

eu não sabia nada...


Foi preciso que o céu se cobrisse

de nuvens negras,

e a tempestade sacudisse

a solidão dos meus salões,

para que eu, transida de medo,

descesse aos subterrâneos do meu palácio,

em busca de protecção

e calor...


E nos subterrâneos...

só encontrei dor maior que a minha...

medo maior que o meu...

e loucura,

e suor,

e fome,

e ódio frio,

e revolta surda,

e o cheiro putrefacto dos corpos

que trouxe a maresia...


Ah! perdoai-me Senhor!

Perdoai-me...

que eu não sabia...



Alda Lara (poetisa angolana)