16.2.08

Naufrágio


Ai a tristeza do vento
chorando...
Ai as nuvens indo à solta
em louca corrida
medrosas, fugindo à mão estendida...
Ai a solidão dos montes
despidos, à nossa volta
onde a vida aos poucos se consome
- seios nus ensanguentados
onde as raízes
morrem de fome...

... E nos rostos ensombrados
rondam saudades: - países
navegam velas: - distâncias...
Gestos parados
caladas ânsias
gritos sem voz...

Dorme o Nosso Senhor Só
dentro de cada um de nós,
envolvido pelo pó
que o vento remexeu e levantou.

Ai este Atlântico triste
que nos deu a nostalgia
dum mundo que só existe
no sonho que ele povoou.


Manuel Lopes (poeta caboverdiano)