21.2.08


Paisagem



No fundo

além da fortaleza sonhadora,

das acácias em flor,

da cidade espalhada em colinas,

da cascata de vidros nas encostas,

do vôo disparado daquele patos

e do calor de tua mão,

no fundo,

feito paisagem indiferente,

o ruído do mar.

Monótono, constante, distraído,

marcando-me o compasso ao pensamento.

E o pôr-de-sol, as nuvens cor de fogo,

a cinza abrasada, um dongo na baía,

a fortaleza debruçada, além,

como quem espreita para além do mar...

Toda a beleza cálida me fere,

só porque o mar,

monótono, indiferente,

repete aquelas frases, cáusticas, brutais,

que eu trouxe no meu peito com vinte anos

os versos de combate,

o meu olhar altivo,

as horas de visão

e os passos muito incertos e tão fortes

que eu sentia no rumo do futuro.

Há uma sombra no céu

e uma névoa nos meus olhos.

As janelas apagam-se em penumbra,

o dongo atravessou a água mansa

e a tua mão aquece a minha mão.

E a tua mão aquece a minha mão.

Crispas os dedos, sentes esta angústia:

a beleza completa-se com dor.

Ao fundo, o mar,

o mar que nos embala e nos conforta,

o mar...

Ó meu amor, e diz,

eu ouço, ele diz,

que a alma não está gasta,

a ânsia não está morta,

se os olhos são capazes de chorar!



Cochat Osório (poeta timorense)