21.2.08


Quissange - Saudade Negra



Não sei, por estas noites tropicais,

o que me encanta...

Se é o luar que canta

ou a floresta aos ais.

Não sei, não sei, aqui neste sertão

de musica dolorosa

qual é a voz que chora

e chega ao coração...


Qual o som que aflora

dos lábios da noite misteriosa!


Sei apenas, e isso é que importa,

que a tua voz, dolente e quase morta,

já mal a escuto, por andar ausente,

já mal escuto a tua voz dolente...


Dolente, a tua voz "luena",

lá do distante Moxico,

que disponho e crucifico

nesta amargura morena...


Que é o destino selvagem

duma canção em que tange,

por entre a floresta virgem

o meu saudoso "Quissange".


Quissange, fatalidade

deste meu triste destino...

Quissange, negra saudade

do teu olhar diamantino.


Quissange, lira gentia,

cantando o sol e o luar,

e chorando a nostalgia

do sertão, por sobre o mar.


Indo mares fora, mares bravos,

em noite primaveril

acompanhando os escravos

que morreram no Brasil.


Não sei, não sei,

neste verão infinito,

a razão de tanto grito...


-Se és tu, oh morte, morrei!


Mas deixa a vida que tange,

exaltando as amarguras,

e as mais tristes desventuras

do meu amado Quissange!


Thomaz Vieira da Cruz (poeta angolano)