7.3.08

Saudade


«Da terra negra à terra vermelha
Por noites e dias fundos e escuros,
Como os teus olhos de dor embaciados,
Atravessaste esse manto de água verde
-Estrada da escravatura
Comércio de holandeses

Por noites e dias para ti tão longos
E tantos como as estrelas do céu,
Tombava o teu corpo ao peso de grilhetas e chicote
E só o ritmo de chape-chape da água
Acordava no teu coração a saudade
Da última réstia de areia quente
E da última palhota que ficou para trás.

E já os teus olhos estavam cegos de negrume
Já os teus braços arroxeavam de prisão
Já não havia deuses, nem batuques
Para alegrarem a cadência do sangue nas tuas veias
Quando ela, a terra vermelha e longínqua
Se abriu para ti...
-e foste 40 libras esterlinas
em qualquer estado do Sul.»


Francisco José Tenreiro (poeta sãotomense)