4.4.08




Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.


Andar, andar que um poeta
não necessita de casa.


Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.


Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.


Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.


Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.


Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.


Porque o poeta, indiferente,
andar por andar - somente.
Não necessita de nada.


Cecília Meireles (poetisa brasileira)