27.5.08


Memória


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.


Carlos Drummond de Andrade (poeta brasileiro)


26.5.08


É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.

É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.


Cecília Meireles (poetisa brasileira)

25.5.08




A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.

Leva o arco-íris em cada fio do cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.

Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.


Cecília Meireles (poetisa brasileira)



Carta aos Mortos


Amigos, nada mudou
em essência.

Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.

Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.

Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há récordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração , insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.


Afonso Romano de Sant'Anna (poeta brasileiro)


Cilada verbal


Há vários modos de matar um homem:
com o tiro, a fome, a espada
ou com a palavra
- envenenada.Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
- na sintaxe da emboscada.

Affonso Romano de Sant'Anna (poeta brasileiro)


20.5.08


Ode ao Almada Negreiros


Maravilhosa plástica das coisas!
Tudo no seu lugar, as cores e os olhos
Lá no lugar de cada coisa, a vê-la
Com seu aspecto natural e próprio.

(Tudo para cada um, na variedade
Dos olhos de quem se admite na paisagem,
Ou como espectador,
Ou como actor,
Ambas as coisas uma, no concerto
Magnífico do mundo.)

...Sem memória, ou com memória a sê-la
Nos olhos a olhar completamente
Sem nenhum pensamento reservado:
- Olhos dados a cada coisa, ou tida
- Cada coisa p’los olhos que se deram!...

Vaivém de tudo e nada, desse nada
Profético de tudo - e o tudo enorme
De cada nada afeiçoado e olhado
À feição de quem olha possuindo
E possuído, na maravilhosa
Cópula grande dos Artistas todos...

Maravilha de ter-se e ter-se dado,
Em cada olhar olhado,
E em cada cor e em cada flor mantido,
Bolindo e vendo
O sonho de se ir tendo
Realizado.


António Pedro (poeta caboverdiano)


Terra


Nha Chica, conte-me
aquela história
de meus irmãos
hoje perdidos
no mundo grande...

Nha Chica, eu sei:
anos de seca,
gentes morrendo,
casas sem telhas,
de porta em porta
olhos crescendo
barriga inchando,
um dia tombam
de olhos vidrados
por qualquer canto...

Lisboa, América,
Dakar ou Rio:
- dentro de nós surge
esta ideia
partir!, partir!

Resignados,
os que ficaram
ficam esperando
que as nuvens toldem
que a chuva caia
que o chão fecunde
cobrindo os montes
cobrindo as várzeas...

Ah! anos fartos!
Milho, feijão,
pilão cochindo,
fumo no ar,
riso nos lábios,
grogue, cigarros,
batuques, bailes
e casamentos...

Olho estes campos,
olho estes mares,
e sinto a Vida
prendida à terra,
feita de sonhos
que um dia esvaem-se
-mas surgem sempre...


António Nunes (poeta caboverdiano)


Casebre


Foi a estiagem

E o silêncio depois.

Nem sinal de planta
nem restos de árvore
no cenário ressequido
da planície:

O casebre apenas
de pedra solta
e uma lembrança aflitiva.

O teto de palha
levou-o
a fúria do sueste.

Sem batentes
as portas e as janelas
ficaram escancaradas
para aquela desolação.

Foi a estiagem que passou.

Nestes tempos
não tem descanso
a padiola mortuária
da regedoria.

Levou primeiro
o corpo mirrado da mulher
com o filho nu ao lado
de barriga inchada
que se diria
que foi de fartura que morreu.
O homem depois
com os olhos parados
abertos ainda.

Tão silenciosa a tragédia das secas nestas ilhas!
Nem gritos nem alarme
— somente o jeito passivo de morrer!

No quintal do casebre
três pedras juntas
três pedras queimadas
que há muito não serviram.

E o arco de ferro do menino
com a vareta ainda presa

Jorge Barbosa (poeta caboverdiano)

19.5.08

Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira (poeta brasileiro)




18.5.08

Os desaparecidos


De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluiam
- mal ligavam o tôrno do dia.

Desaparecia-se.
Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia.
Desaparecia-se
até a primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes esvaneciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, arefeitos, constatar no além,
como os pescadores partiam.

Desaparecia-se.
Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
- desapareciam.
Se fosse ao tempo da Bíblia, eu diria
que carros de fogo arrebatavam os mais puros
em mística euforia.

Não era. É ironia.
E os que estavam perto, em pânico, fingiam
que não viam. Se abstraíam.
Continuavam seu baralho a conversar demências
com o ausente, como se ele estivesse ali sorrindo
com suas roupas e dentes.

Em toda família à mesa havia
uma cadeira vazia, a qual se dirigiam.
Servia-se comida fria ao extinguido parente
e isto alimentava ficções
- nas salas e mentes
enquanto no palácio, remorsos vivos boiavam
- na sopa do presidente.
As flores olhando a cena, não compreendiam.
Indagavam dos pássaros, que emudeciam.
As janelas das casas, mal podiam crer
- no que viam.
As pedras, no entanto,
gravavam os nomes dos fantasmas
pois sabiam que quando chegasse a hora
por serem pedras, falariam.

O desaparecido é como um rio:
- se tem nascente, tem foz.
Se teve corpo, tem ou terá voz.
Não há verme que em sua fome
roa totalmente um nome. O nome
habita as vísceras da fera
Como a vítima corrói o algoz.

E surgiam sinais precisos
de que os desaparecidos, cansados
de desaparecerem vivos
iam aparecer mesmo mortos
florescendo com seus corpos
a primavera de ossos.

Brotavam troncos de árvores,
rios, insetos e nuvens em cujo porte se viam
vestígios dos que sumiam.

Os desaparecidos, enfim,
amadureciam sua morte.

Desponta um dia uma tíbia
na crosta fria dos dias
e no subsolo da história
- coberto por duras botas,
faz-se amarga arqueologia.

A natureza, como a história,
segrega memória e vida
e cedo ou tarde desova
a verdade sobre a aurora.

Não há cova funda
que sepulte
- a rasa covardia.
Não há túmulo que oculte
os frutos da rebeldia.
Cai um dia em desgraça
a mais torpe ditadura
quando os vivos saem à praça
e os mortos da sepultura.

Affono Romano de Sant'Anna (poeta brasileiro)


12.5.08


E agora só me restam



E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz - esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)



Indizíveis


O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra
Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.
Falávamos de coisas bobas,
Isto é, que a gente grande achava bobas
Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.

Crianças...

Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos
A não ser o azul imenso dos olhos dela,
Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,
Nem no cachorro e no gato da casa,
Que tinham apenas a mesma fidelidade sem compromisso
E a mesma animal - ou celestial - inocência,
Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:

Não, não importava as coisas bobas que disséssemos.
Éramos um desejo de estar perto, tão perto
Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas
Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,
Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia
Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida...


Mário Quintana (poeta brasileiro)


8.5.08



Fechei os olhos para não te ver

e a minha boca para não dizer...

E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,

e da minha boca fechada nasceram sussurros

e palavras mudas que te dediquei...

O amor é quando a gente mora um no outro.


Mário Quintana (poeta brasileiro)


7.5.08


Adão e Eva

1

Feliz era nudez. Vinha diurna
de dentro de si mesma. Porque o dia
ressumbrava recente desde a sua
novidade de pasmo. E de pupila
apta à evidência. E, por isso, arguta,
sem deduzir-se duma argúcia activa.
Onde fossem seus passos a espessura
entregava o seu fervor de enigma
para, depois, se recolher. Ter junta
e pronta a ordem de nova epifania.
Era a nudez da inteligência. Abrupta
e, ao mesmo tempo, de precisão tão íntima
que até os recantos justos da penumbra
recrutavam a luz da perspectiva.


2

E, além de feliz, era a nudez
encontro de surpresa e de substracto
– dentro palpites de sinais, e até
intento a consumar o corpo, em estado
de o espírito iluminar a tez
que também se enriquece à luz do tacto.
Ou a surpresa é dar-se o estar a ser
com o dentro a difundir o seu espaço
num paraíso de animais que vêm
ao encontro de serem nomeados.

3

E tudo encontra na evidência o nome.
A recente nudez da novidade
traz o enigma do que vem de longe
sem reserva qualquer nele entregar-se.
Ou cada coisa do seu dentro rompe
perpetuamente àquele feliz instante
em que estarem a vê-lo lhe recolhe
estar a ser. Com todo o ser em fase.

4

E, enfim, era a nudez corpo visível
onde, invisível, se ajustava o acto
de olhar. Não para enclausurar limites,
ou reduzir o que se estava dando.
A nudez recrudescia. A abrir-se
com a frequência a exceder o impacto
da visibilidade. E assim o timbre
da sua luz estimulava o ângulo
que a sagrava num espaço inextinguível.
E tinha o pulso de lugar sagrado.


Fernando Echavarria (poeta timorense)


6.5.08


A tecedeira seguiu
com as mãos
o movimento do sol

A tecedeira criou
o mundo
com os dedos leves de amaciar
as fibras.

Ana Paula Tavares (poetisa angolana)



4.5.08


Sob as acácias floridas



Com Novembro a chiar nestas cigarras
as acácias sangrando suas flores
e um sol afirmativo num céu alto

Espero a tua carta e a minha vida

Uma pausa do tempo em minhas mãos
preenchida
pela contagem das horas
nas cigarras e pétalas caídas.

2

A rua corre larga e sossegada
É a hora de tu vires!
Tu vens (eu sei) na moldura vesperal
com esta luz do passado nas paredes
e este céu de altocúmulos de Dezembro.

Com os estames d'acácia
jogo a vida nas sortes infantis
«Antera cai? Não cai? Ela virá? Não vem?»
E a cada sorte recuso a evidência
«Ela virá? Não vem?»
É a hora de chegares!

3

Os aros dos meus óculos te emolduram
ó Vénus de cabelos desfrizados!
Enquanto as minhas mãos, cegas, procuram
o cofre dos teus seis apertados.

Construímos assim a primavera
- a negada primavera dos amores:
Pega uma flor d'acácia para a pores
no meu cabelo indómito de fera.

Repara e vê a doce realidade:
os nossos jogos simples e ingénuos!
Esta soalheira vespertina hoje é-nos
bela imagem da nossa felicidade.

4

Cigarreio sem sol neste Dezembro.
E um céu da cor da angústia que me dá
a tua ausência em carne e em pensamento.

Magoa-me o teu rosto que não lembro
e o tau vestido branco táfetá
que voava batido pelo vento.

Se esta vida tão clara e simples fosse
como a imagem fixada desse instante
nenhum mal me faria esta chuva precoce.

Chuva, mãe dos poetas, minha amante,
lava às acácias o sanguíneo canto,
cala a voz das cigarras e o meu pranto!

Mário António (poeta angolano)


Ode à Avó Capinha


Minha avó Capinha, minha avó Capinha,
hoje que morreste (que tristeza a minha!),
relembro as histórias que tu me contavas
em manhãs de chuva, nas noites de lua...
(E meu ser, magoado, perde-se, flutua
como o sonho errante das almas escravas).

Minha avó Capinha, sou eu que te peço,
conta-me o romance, conta-me o sucesso
dos teus dezoito anos (ai, onde eu estou!),
quando tu dançavas belas batucadas,
pelas noites quentes de febris queimadas,
na velha sanzala que se incendiou...

Minha avó Capinha, minha avó Capinha,
conta-me essa lenda daquela mocinha
negra, tão formosa, que numa manhã
engoliu um bago de feijão macunde
e ficou (que mágoa no meu ser se funde!)
para todo o sempre pequenina, anã.

Minha avó Capinha, hoje que morreste,
manda-me notícias da mansão celeste:
se também há ódios ou há só amor
(a descrença enorme do teu pobre neto!),
se há um Deus que é branco e outro Deus que é preto,
ou um Deus existe sem raça nem cor.


Geraldo Bessa Vitor (poeta angolano)

3.5.08


Essa negra fulô


Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.


Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

"Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco".

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
"minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou".

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa,
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!


Jorge de Lima (poeta brasileiro)






1.5.08


Noites de luar no morro da Maianga



Noites de luar no Morro da Maianga
Anda no ar uma canção de roda:
"Banana podre não tem fortuna
Fru-tá-tá, fru-tá-tá..."
Moças namorando nos quintais de madeira
Velhas falando conversa antigas
Sentadas na esteira
Homens embebedando-se nas tabernas
E os emigrados das ilhas...
- Os emigrados das ilhas
Com o sal do mar nos cabelos
Os emigrados das ilhas
Que falam de bruxedos e sereias
E tocam violão
E puxam faca nas brigas...
Ó ingenuidade das canções infantis
Ó namoros de moças sem cuidado
Ó histórias de velhas
Ó mistérios dos homens
Vida!:
Proletários esquecendo-se nas tascas
Emigrantes que puxam faca nas brigas
E os sons do violão
E os cânticos da Missão
Os homens
Os homens
As tragédias dos homens!


Mário António (poeta angolano)


Rua da Maianga


Rua da Maianga
que traz o nome de um qualquer missionário
mas para nos somente
a rua da Maianga

Rua da Maianga ás duas horas da tarde
lembrança das minhas idas para a escola
e depois para o liceu
Rua da Maianga dos meus surdos rancores
que sentiste os meus passos alterados
e os ardores da minha mocidade
e a ânsia dos meus choros desabalados!

Rua da Maianga ás seis horas e meia
apito do comboio estremecendo os muros
Rua antiga de pedra incerta
que feriu meus pezitos de criança
e onde depois o alcatrão veio lembrar
velocidades aos carros
e foi luto na minha infância passada!

Rua da Maianga a qualquer hora do dia
as mesmas caras nos muros
(As caras da minha infância
nos muros inacabados!)
as mocas nas janelas fingindo costurar

a velha gorda faladeira
e a pequena moeda na mão do menino
e a goiaba chamando dos cestos
à porta das casas!
(Tão parecido comigo esse menino!)

Rua da Maianga a qualquer hora
o liso alcatrão e as suas casas
as eternas mocas de muro
Rua da Maianga me lembrando
meu passado inutilmente belo
inutilmente cheio de saudade!

Mário António (poeta angolano)


Ilha de Moçambique


Ilha de oiro e angústia
Feita de sol e de prata
Marfim talhado em relíquias
Cobre batido do vento
Num moinho de saudades.

Fortaleza escancarada
A memórias esquecidas...

Senhora do Baluarte velando
As brancas velas do Canal.

Sermões de S. Francisco Xavier
Guardados nas rochas de coral.

Riquexós vagueando ao sol
Brancas praias sonolentas
Enfeitadas de saris e cofios
Brancos, pretos, encarnados

E rostos cor da verdade
De viver num monumento
De prata, de oiro e de cobre
Cobre batido do vento...

Pórtico dos sonhos, momento
de indias descobertas e vencidas
Monumento, monumento,
De memórias esquecidas...

Além-portas de marfim
Paredes meias com a História
Dentro da fama e memória
Para que nela sempre fique
A Ilha de Moçambique.


Neves e Sousa (poeta angolano)



Mussunda amigo


Para aqui estou eu
Mussunda amigo
Para aqui estou eu
Contigo
Com a firme vitória da tua alegria
e da tua consciência
O ió kalunga ua mu bangele!
O ió kalunga ua mu bangele-lé-leleé...
Lembras-te?
Da tristeza daqueles tempos
em que íamos
comprar mangas
e lastimar o destino
das mulheres da Funda
dos nossos cantos de lamento
dos nossos desesperos
e das nuvens dos nossos olhos
Lembras-te?
Para aqui estou eu
Mussunda amigo
A vida a ti a devo
à mesma dedicação ao mesmo amor
com que me salvaste do abraço
da jibóia
à tua força
que transforma os destinos dos homens
A ti Mussunda amigo
a ti devo a vida
E escrevo versos que não entendes
compreendes a minha angústia?
Para aqui estou eu
Mussunda amigo
escrevendo versos que tu não entendes
Não era isto
o que nós queríamos, bem sei
Mas no espírito e na inteligência
nós somos!
Nós somos
Mussunda amigo
Nós somos
Inseparáveis
e caminhando ainda para o nosso sonho
No meu caminho
e no teu caminho
os corações batem ritmos
de noites fogueirentas
os pés dançam sobre palcos
de místicas tropicais
Os sons não se apagam dos ouvidos
O ió kalunga ua mu bangele...
Nós somos!


Agostinho Neto (poeta angolano)




Fogo e ritmo


Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.
Ó vozes dolorosas de África!


Agostinho Neto (poeta angolano)




Kinaxixi


Gostava de estar sentado
num banco do kinaxixi
às seis horas duma tarde muito quente
e ficar...
Alguém viria
talvez sentar-se
sentar-se ao meu lado
E veria as faces negras da gente
a subir a calçada
vagarosamente
exprimindo ausência no kimbundu mestiço
das conversas
Veria os passos fatigados
dos servos de pais também servos
buscando aqui amor ali glória
além uma embriagues em cada álcool
Nem felicidade nem ódio
Depois do sol posto
acenderiam as luzes
e eu
iria sem rumo
a pensar que a nossa vida é simples afinal
demasiado simples
para quem está cansado e precisa de marchar.


Agostinho Neto (poeta angolano)



Surucucu


Fui mordido sem remédio,
quem me mordeu foste tu...
E agora morro de tédio,
veneno surucucu.
.
Foi numa triste cubata,
mais longe do que a distância,
mais longe do que a saudade,
que é tempo morto que mata.
.
Nunca mais posso esquecer
a tua boca sem fala,
quando um leão, que era rei,
assustava e complicava
os murmúrios da sanzala.
.
Uma palmeira
à luz da Lua, parecia que rezava
naquele mundo profano!...
.
Fui mordido... - Foste tu! -
Nunca mais posso esquecer-te,
- veneno surucucu.


Tomás Vieira da Cruz (poeta angolano)



Primeiro amor. Vivi aí.



Primeiro amor. Vivi aí.
Casa grande de janelas abertas
para o verde, chave do nosso coração.
Meninos do bom Deus com histórias diferentes
e o mesmo temor e segurança.
Tudo tinha muita cor
como as casas pintadas de fresco
e as ruas debaixo da sombra das árvores.
Dos jardins víamos os novos modelos dos carros
dos anos setenta.
Havia concertos para piano sem orquestra.
E, às vezes, mulheres, loiras muito loiras
cantavam músicas de nós desconhecidas.

Posávamos para os fotógrafos
moças virgens esperadas à saída das aulas
e ouvíamos "if you are going to San Francisco".
As fotografias dessa época estão em casa das tias
e os nossos olhos de terra ou de água ou de noite
não são o que eram: por isso, continuam os mesmos.

Ondulam as cortinas levemente
como a última brisa
para lá da sebe junto aos muros baixos
oiço o barulho das árvores
imensas e antigas
e lembra-me um andamento
das Fantasias de Schumann.
Primeiro amor. Vivi aí.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)


Morrer na madrugada



Se morrer na madrugada
não me acordem
deixem-me dormir o sono calmo
de quem sonhando
levou a vida
Se morrer na madrugada
meus amigos
meus inimigos
não busquem misteriosas causas
não inventem histórias
de santas e kimbandas.
Sepultem-me
no pico do monte mais agreste
na raiz
do mais doido vento
sem batuque nem komba
sem pranto ou espanto
sem canjica nem carpideiras
sem dor nem quebranto.
Deixem-me dormir o meu sono
Se morrer na madrugada
peço, não me acordem
deixem as estrelas contaminar-se
na magia do meu sono

Joffre Rocha (poeta angolano)



Estrada


Luanda Dondo vão,
cento e tal quilômetros
mangas e cajus
marcos brancos
meninos nus

Branco algodão
crescendo
corpos negros
na cacimba

O Lucala corre
confiante
indiferente à ponte que ignora

Verdes matas
Sangram vermelhas acácias
imbondeiros festejam
o minuto da flor anual

Na estrada
o rebanho alinha
pelo verde
verde capim

Adivinhados
caqui lacraus
de capacete giz
trazem a morte

Meninos
se embalam
em mães velhas
de varizes:

Rios azuis
da longa estrada

E é fevereiro
sardões as sol
Cassoalala

Eia Mucoso
tão cheio agora
Adivinhados
permanecem
lacraus caqui
capacetes giz

Não param as colheitas

Que razão seriam
fevereiro
acácias sangrando vermelho
verdes sisais
cantando o parto
da única flor?

Não param as colheitas!


Luandino Vieira (poeta angolano)



Canto à mulher amada


Sinto a amargura de te perder nesta vontade maldita
meu coração desfalece enquanto a noite te canta
tu que eras em mim a flor
porque te vais deixando sangrar o amor?

partiste deixando a melancolia
a ternura consome o coração
a dor mistura-se com a nostalgia

sobre estas lágrimas paradas tecestes a peneumbra
voastes como um pássaro ferido lenado em ti a aurora
falsa esperança esta
considerada sem meta


Hélder Proença (poeta guineense)



In Memoriam
Em homenagem a José Carlos Schwarz...


Na lonjura dos anos
choro uma alma amordaçada
mas de voz de livre
voz de melodias perfeitas clamando justiça
aquele tempo de espera infinda
de labaredas de fumo melancólico
em que a terra se mergulhou

Na lonjura dos anos
choro por quem a morte venceu
mas vive dentro de mim
nestes dias de novos desencantos
agora que a terra emudeceu
para sempre

Na lonjura dos anos
proscrito na ilha distante
sucumbiram também
os olhos e a memória
do poeta-cantor
cheios «Do Verde (verde, verde!) do meu País»
«Verde seja a esperança
do regresso breve»


Julião Soares Sousa (poeta guineense)


País natal

Um sentimento de amor pátrio sobe no meu coração.
Em espírito demando o meu país natal.
E lembro aquela floresta africana,
Cheia de caça e de verdura:
Lembro as suas imensas árvores gigantes,
A folhagem verde ou amarela
Que nos perfuma.
Revejo a minha infância,
Toda cheia de alegrias:
Eu corria pelo mato,
Espiava os animais selvagens,
Sem medo;
E olhava os lavradores nos campos,
E, no mar, os pescadores,
Que lutavam contra o vento, para agarrar o peixe.
E que eu, atento, seguia com o olhar:
Como gostava de os ver no oceano
Domar as vagas, que lhes queriam virar as barcas!
(Ah!, bem me lembro, bem me lembro do meu país natal!)


António Baticã Ferreira (poeta guineense)



Rosa


Rosa.
Chamam-te Rosa, minha preta formosa,
E na tua negrura
Teus dentes se mostram sorrindo.
Teu corpo baloiça, caminhas dançando,
Minha preta formosa, lasciva e ridente
Vais cheia de vida, vais cheia de esperança
Em teu corpo correndo a seiva da vida
Tuas carnes gritando
E teus lábios sorrindo...
Mas temo a tua sorte na vida que vives,
Na vida que temos..
Amanhã terás filhos, minha preta formosa
E varizes nas pernas e dores no corpo;
Minha preta formosa já não serás Rosa,
Serás uma negra sem vida e sofrente,
Serás uma negra
E eu temo a sua sorte.
Minha preta formosa não temo a tua sorte,
Que a vida que vives não tarda a findar...
Minha preta formosa, amanhã terás filhos
Mas também amanhã...
... amanhã terás vida!


Amílcar Cabral (poeta guineense)



Poemar



fui à escrita
poemar
um flirt com a poesia
uma paixão gerada em sílabas
prenhes de ternura

o corpo não cede ao fogo
resta a poesia
e sou mais eu em ti

no presságio a palavra
palavra, que lavra
em safras de ardoamor
apocalipse de corpos
em procissão de amor
no lusco-fusco do crepúsculo
me encontro
vejo o fogo
nascer do iceberg
do teu corpo-mármore

a poesia ocorre
em plasmas de amor
vem com o calor-vermelho
que invade o corpo em corpo
em cortinas de suor

e fleuma do teu corpo
libertando ternura sonegada
em suspiros de madrugada morena
que pétalas de feitiço-crioulo
acalentam em seivas de amor


Tony Tcheca (poeta guineense)


Os poetas gostam de alinhar
Versos e mais versos
E construir Universos
De palavras.


Vasco Cabral (poeta guineense)


Anti-holocausto


Se o Universo
coubesse
na linha de um verso
e se pudesse
transformar-se em prado
seria
uma felicidade
e também uma alegria
para a Humanidade

E em vez da guerra
só haveria a Paz
para todos o homem na terra!


Vasco Cabral (poeta guineense)


Ilha


Tu vives — mãe adormecida —
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem…

Ilha:

teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
— os sonhos dos teus filhos —
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!

Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
— terra dura —
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!



Amílcar Cabral (poeta guineense)



Os anjos choram


Uma cidade caiu
e os homens perderam-se nos trilhos
das casas agora desabadas.
As mulheres de joelhos em cima do
nada

já não sabem rezar.

Os anjos choram
e o bálsamo de todas as
feridas
não chega até nós.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)


Sem perguntas...


Deixa
que eu
te
ame
em silêncio

Não pergunte,
não se explique,

deixe que nossas línguas se toquem,
e as bocas e a pele
falem seus líquidos desejos.

Deixa
que eu
te
ame
sem palavras

a não ser aquelas
que na lembrança
ficarão pulsando para sempre
como se
o amor
e
a vida

fosse um discurso
de
impronunciáveis emoções


Affonso Romano de Sant´Anna (poeta brasileiro)



Gostar muito de ti


Foi sobre a relva orvalhada
pelo frescor de um riacho,
quando o sol obliquava
e em volta era tudo selva,
que eu comi uma pantera
escura, feroz, inglesa,
com o cheiro de violetas
debaixo dela e de mim.

(Fulva para quem quiser
modas pré rafaelistas,
a pantera! Tanto faz!
Ou morena. Convenção
como convém a uma inglesa
convencional, de ocasião.)

E quando nos despedimos
– era noite, havia estrelas –
disseste com essa fleuma
que tão mal me fica a mim:
– I'll see you later. Do come.
Vem amanhã tomar chá.
Eu gostar muito de ti.


Ruy Cinatti (poeta timorense)