31.12.09

História de amor da princesa Ozoro e do húngaro Ladislau Magyar





Primeiro momento

Meu pai chamou e disse:
mulher, chegou a hora, eis o senhor da tua vida
aquele que te fará árvore

Apressa-te Ozoro,
parte as pulseiras e acende o fogo.
Acende o fogo principal, o fogo do fogo, aquele que arde
noite e sal.
Prepara as panelas e a esteira
e o frasco dos perfumes mais secretos
Este homem pagou mais bois, tecidos e enxadas do que
aqueles que eu pedi
este homem atravessou o mar
não ouvi falar do clã a que pertence
o homem atravessou o mar e é da cor do espírito

Nossa vida é a chama do lugar
Que se consome enquanto ilumina a noite

Voz de Ozoro:

Tate tate
meus todos parentes de sangue
os do lado do arco
os do lado do cesto
tate tate
porque me acordas para um homem para a vida
se ainda estou possessa de um espírito único
aquele que não se deu a conhecer
meu bracelete entrançado
não se quebrou e é feito das fibras da minha própria essência
cordão umbilical
a parte da mãe
meu bracelete entrançado ainda não se quebrou
Tate tate
ouve a voz de meu pequeno arco esticado
as canções de rapariga
minha dança que curva a noite
ainda não chegou meu tempo de mulher
o tempo que chegou
é lento como um sangue
que regula agora as luas
para mim
de vinte oito em vinte e oito dias

Segundo momento

Voz de Magyar:

Senhor:
Atravessei o mar de dentro e numa pequena barcaça
desci de Vardar para Salônica, durante a batalha das
sombras. De todas as montanhas, a que conheço expõe um
ventre de neve permanente e uma pele gretada pelo frio.
Nasci perto do Tisza Negro, junto à nascente.
Naveguei um oceano inteiro no interior de um navio
habitado de fantasmas e outros seres de todas as cores com
as mesmas grilhetas. Como eles mastiguei devagarinho a
condição humana e provei o sangue o suor e as lágrimas do
desespero. São amargos, senhor, são amargos e nem sempre
servem a condição maior da nossa sede. Vivi durante
muitos meses o sono gelado da solidão.
Senhor
Eu trago um pouco de vinho sonolento do interior da
terra e a estratégia de uma partida húngara, levo o bispo por
um caminho direto até à casa do rei, senhor. Por isso aqui
estou e me apresento, meu nome igual ao nome de meu
povo, Magyar, os das viagens, Magyar, o dos ciganos.
Senhor
Eu trouxe meus cavalos e vos ofereço minha ciência de
trigo, em troca peço guias dos caminhos novos, alimento
para as caravanas, licença para o Ochilombo e a mão de
Ozoro a mais-que-perfeita.
Senhor, deixai que ela me cure da febre e da dor que trago
da montanha para lá dos Cárpatos.
Senhor, deixai que ela me ensine a ser da terra.

Terceiro momento

Coro das mais velhas:

Fomos nós que preparamos Ozoro, na casa redonda
muitos dias, muitas noites na casa redonda
Fomos nós que lhe untamos, de mel, os seios
na casa redonda
Com perfumes, tacula e fumo velho esculpimos um corpo
na casa redonda
Nosso foi o primeiro grito perante tanta beleza:
Oh, rapariga na palhoça, sentada, ergue-te para que
possamos contemplar-te!

Quarto momento

Vozes das meninas:

Meu nome é terra e por isso me movo lentamente meia
volta, uma volta, volta e meia, para que o tempo me
encontre e se componha.
Sou a companheira favorita de Ozoro do tempo da casa
redonda.

Meu nome é pássaro, como o nome do clã a que
pertenço. Com Ozoro descobri o lago e as quatro faces da
lua, e vi primeiro que todos a cintura de salalé que se
contrai à volta das nossas terras.

Meu nome é flor e sou especialmente preparada para
cuidar do lugar onde a alma repousa. Com Ozoro eu tenho
o cheiro, guardado no frasco de perfumes mais pequeno - o
do mistério.

Meu nome é princípio e eu tenho as mãos do lugar e a
ciência dos tecidos como as mais velhas. Para Ozoro, a princesa,
eu já teci o cinto de pedras apertadas, o mais belo cinto,
de contas vindas do outro lado do tempo da própria casa de
Suku. Para o tecer preparei todos os dias as mãos com preciosos
cremes da montanha. Apertei cada conta no nó fechado
igual ao que fecha a vida em cada recém-nascido. Para Ozoro
eu teci o cinto mais apertado das terras altas.

Meu nome é memória e com as velhas treinei cada fala
- a do caçador nas suas caçadas
- a dos homens no seu trabalho
- o canto das mulheres nas suas lavras
- a das raparigas no seu andar
- o canto da rainha na sua realeza
- o som das nuvens na sua chuva
Na lavra da fala faço meu trabalho, como a casa sem
porta e sem mobília, não tão perfeita como a casa onde o
rei medita, tão redonda como a casa onde Ozoro e as
meninas aprenderam a condição de mulheres.

Coro das meninas:

A casa das mulheres
A casa da meditação
A casa da chuva
A casa das colheitas
A casa das meninas: Terra, Flor, Pássaro, Princípio, Memória

Fala do fazedor de chuva:

Eu que amarrei as nuvens, deixei chover dentro de mim.
Deixei uma nuvem solta, grande e
gorda de chuva rebentar dentro de mim.
Sangro em utima meu pranto de nuvens, choro em
Osande a princesa perfeita, a minha favorita.

Coro dos rapazes:

Desde ontem ouvimos o rugir do leão atrás da paliçada
E as palavras mansas do velho sábio dentro da paliçada
Desde ontem que o leão não se afasta detrás da paliçada
E se ouve o velho que fala com o leão atrás da paliçada
Desde ontem o feiticeiro acende o fogo novo dentro da
paliçada
E se espalham as cinzas do fogo antigo atrás da paliçada
Diante de ti, Ozoro, depositamos a cesta dos frutos e
a nossa esperança

Fala da mãe de Ozoro:

Fui a favorita, antes do tempo me ter comido por
dentro. Semeei de filhos este chão do Bié.
Para ti, Ozoro, encomendei os panos e fiz, eu mesma,
os cestos, as esteiras. Percorri os caminhos da missão.
Encontrei as palavras para perceber a tua nova língua e os
costumes. Com as caravanas aprendi os segredos do mar e
as histórias. Deixo-te a mais antiga
História do pássaro Epanda e do ganso Ondjava

Há muito muito tempo estas duas aves decidiram juntar forças e fazer
o ninho em conjunto. Ondjava era um animal muito limpo e lavava e cuidava
dos seus ovos e da sua parte do ninho. Quando nasceram os filhos,
os pequenos de Epanda estavam sempre muito sujos e feios, enquanto
os de Ondjava deixavam que o sol multiplicasse de brilho as suas penas.
Um dia, Epanda raptou e escondeu os filhos de Ondjava quando esta
se afastara em busca de comida. Ondjava chorou muito e, enquanto recorria
ao juiz para resolver o caso, cuidou dos outros filhos, lavou o ninho todo
e armazenou comida para o cacimbo. Um dia os filhos limpos de Ondjava
voltaram e o juiz determinou pertencerem a esta ave, ninho, filhos e ovos,
porque só merece o lugar quem dele cuida, quem o sabe trabalhar.

Coro:

Só merece o lugar que o sabe trabalhar
Só é dono do lugar aquele que o pode limpar

Fala de Ladislau Magyar, o estrangeiro:

Amada, deixa que prepare o melhor vinho e os
tecidos
e que, por casamento, me inicie
nas falas de uma terra que não conheço
no gosto de um corpo
que principio
Amada, há em mim um fogo limpo
para ofertar
e o que espero é a partilha
para podermos limpar os dois o ninho
para podermos criar os dois o ninho.

Fala dos feiticeiros:

Podemos ver daqui a lua
e dentro da lua a tua sorte, Ozoro
aprenderás a caminhar de novo com as caravanas
e estás condenada às viagens, Ozoro
teus filhos nascerão nos caminhos
serão eles próprios caminhos
da Lunda
do Rio Grande
se o cágado não sobe às árvores, Ozoro
alguém o faz subir!

Última fala de Ozoro antes da viagem:

Amar é como a vida
Amar é como a chama do lugar

que se consome enquanto se ilumina
por dentro da noite.


Ana Paula Tavares (poetisa angolana)
in O lago da lua

30.12.09

Se em Nós a Solidão Viver Sozinha



Se em nós a solidão viver sozinha,
sem que nada em nós próprios a perturbe,
cada figura passará rainha
na antiguidade súbita da urbe.

Um acento de pena irá na linha
vincar a eternidade de figura
a um rosto que quase só caminha
para dentro de o vermos pela pura

substância em si que vive a solidão
dentro de nós. E sendo nós só margem
do seu reino de ver por onde vão

as figuras passando na paisagem
de um antigo fulgor de coração
aonde passam desde sempre. E agem.

Fernando Echevarría (poeta timorense)


29.12.09

Amargos como os frutos





"Dizes-me coisas tão amargas como os frutos..."
Kwanyama


Amado, porque voltas
com a morte nos olhos
e sem sandálias
como se um outro te habitasse
num tempo
para além
do tempo todo

Amado, onde perdeste tua língua de metal
a dos sinais e do provérbio
com o meu nome inscrito

onde deixaste a tua voz
macia de capim e veludo
semeada de estrelas

Amado, meu amado
o que regressou de ti
é tua sombra
dividida ao meio
é um antes de ti
as falas amargas
como os frutos

(Dizes-me coisas amargas como os frutos)


Ana Paula Tavares (poetisa angolana)

28.12.09

O sapo



O sapo
sabe
saltar na lagoa

o sapo
sabe
que não voa

o sapo
chape
chape


David Mestre (poeta angolano)

21.12.09

Soneto de Natal




Um homem, - era aquela noite amiga,
Noite Cristã, berço do Nazareno -
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite Cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
Mudaria o Natal ou mudei eu?


Machado de Assis (poeta brasileiro)

19.12.09

Recordo ainda...



Recordo ainda...
E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa.
Que deixavam, sempre,de lembrança,
algum brinquedo novo à minha porta...
Mas veio um vento de desesperança...
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta.
Todos os meus brinquedos de criança...
Estrada afora após segui...
Mas,aí,
Embora idade e senso eu aparente,
não vos iluda o velho que aqui vai:
eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino...
Acreditai!
Que envelheceu um dia de repente".

Mário Quintana (poeta brasileiro)


Os Dois Horizontes



Dois horizontes fecham nossa vida:

Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro,—
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais;
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.

Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.

No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.

Que cismas, homem? – Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? – Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.

Dois horizontes fecham nossa vida.

Machado de Assis (poeta brasileiro)

Beijo Eterno



Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue.
Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
Fora, repouse em paz
Dormindo em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa,
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!...
Diz tua boca: "Vem!"
Inda mais! diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais!
que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!

Castro Alves (poeta brasileiro)

Ao Menino Deus Nascido


Não choreis, belo Menino,
Se de amante vos prezais,
Porque amor que chora mais
É sempre amor menos fino:
Limpai o rosto divino,
A quem a minha alma adora,
Que se Vossa Mãe vos chora
Meu Deus, com tantos rigores,
É porque, ao nascer das flores,
Costuma chorar a Aurora.


Jerónimo Baía (poeta brasileiro)

Tratem-me com a massa





"Amparai-me com perfumes, confortai-me com maçãs
que estou ferida de amor..."

Cântico dos Cânticos


Tratem-me com a massa
de que são feitos os óleos
p'ra que descanse, oh mães

Tragam as vossas mãos, oh mães,
untadas de esquecimento

E deixem que elas deslizem
pelo corpo, devagar

Dói muito, oh mães

É de mim que vem o grito.

Aspirei o cheiro da canela
e não morri, oh mães.

Escorreu-me pelos lábios o sangue do mirangolo
e não morri, oh mães.
De lábios gretados não morri

Encostei à casca rugosa do baobabe
a fina pele do meu peito
dessas feridas fundas não morri, oh mães.

Venham, oh mães, amparar-me nesta hora
Morro porque estou ferida de amor.


Ana Paula Tavares (poetisa angolana)

Estou sentindo o martírio



"Estou sentindo o martírio de uma importuna sensualidade.
De madrugada acordo cheia de frutos.
Quem virá colher os frutos de minha vida?"


Clarice Lispector (poetisa brasileira)

O seu santo nome...


Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

Carlos Drummond Andrade (poeta brasileiro)



18.12.09

Mulher andando nua pela casa



Mulher andando nua pela casa
envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
inocência de irmã e copo d’água.

O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.

Pêlos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
repousam de guerra. Também eu repouso.

Carlos Drummond de Andrade (poeta brasileiro)

17.12.09

Poemeto erótico



Teu corpo claro e perfeito,

- Teu corpo de maravilha,

Quero possuí­-lo no leito
Estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo, branco e macio,
é como um véu de noivado...

Teu corpo é pomo doirado...

Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume...

Teu corpo é a brasa do lume...

Teu corpo é chama e flameja
Como a tarde os horizontes...

E puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama...

Volúpia da água e da chama...

A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...

Manuel Bandeira (poeta brasileiro)


16.12.09

Inconfesso Desejo


Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo

Carlos Drummond de Andrade (poeta brasileiro)

12.12.09

Natal Timor



Meu Natal Timor
Meu primeiro Natal!

Quantos anos tinha?
Nunca o soube ao certo!

Minha mãe-menina
Fez o seu presépio.
Uma encosta arrancada a Ramelau
Com uma gruta ausente
cheia de maromak
E perfume de coco.
Um búfalo e um kuda
E o bafo quente dos seus pulmões.
E o menino sobre a palha de arroz
E folhas de cafeeiro.

Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Inan, quem é?
- É o Maromak filho e teu irmão!

E eu recuei, porque via no berço
Um menino rosado
Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Ele é mais do que todos teu irmão...
- Mas, como pode ser um meu irmão?
-É teu irmão: Firma-lhe bem os olhos,
meu Amor!
E eu obedecendo
Firmei-me todo n’ele
E vejo-o desde então
Também da minha cor.


Fernando Sylvan (poeta timorense)


Maromak = Deus
Kuda = cavalo
Inan = Mãe

10.12.09

Ilha


Em ti me projecto
para decifrar do sonho
Em ti me firmo
para rasgar sobre o pranto
o grito da imanência.

Conceição Lima (poetisa sãotomense)

9.12.09

Um amor como este



Um amor como este
não pede mar ou praia:
somente o vento leste
erguendo a tua saia.
O resto é o futuro
além, à nossa espreita:
doce fruto maduro
na hora da colheita.

Daniel Filipe (poeta caboverdiano)


O mirangolo



Testículo adolescente
purpurino
corta os lábios ávidos
com sabor ácido
da vida
encandesce de maduro
e cai

submetido às trezentas e oitenta e duas
feitiçarias do fogo
transforma-se em geleia real:

ilumina a gente.


Ana Paula Tavares (Angola)

8.12.09

Ofertas ao Menino



Minha pobreza tal é
que não trago presente grande.
Trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues.

Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor.
Trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor.
Cobrindo-se assim de letras vai um dia ser doutor.

Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro.
Trago aqui água de Olinda,
água da bica do Amparo.

Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago.
Trago este canário da terra
que canta corrido e de estalo.


João Cabral de Melo Neto (poeta brasileiro)

6.12.09

Recado para a amiga distante




Dorme Menino dorme
teu sonho quieto lúdico
enquanto longe estoura
a bomba no atol

Que outra coisa Menino
poderemos fazer
ante o inominado
desconhecido crime
que de entre as chamas nasce
no silêncio da noite?

Que palavra inventada
que rubro gládio pode
definir o temor
do começo do mundo?

Que estranho abjecto ritmo
em cogumelo alastra
sobre o teu sono puro
Menino sobre a esperança?


(Um tigre humano vem a cada esquina oculto no rumor
da manhã saciar-se de sangue)

Daniel Filipe (poeta caboverdiano)

5.12.09

O Soba



Sobre todas as coisas, o soba
venera o eco da própria voz.
No anel de silêncio que rodeia o seu trono
proclamou o domínio dos homens
e a posse do mundo.


Conceição Lima (poetisa sãotomense)

3.12.09

Paisagem do Nordeste



rio estátua
braço sem carne

chuva no mar
em terra seca

sol na paisagem
terra em desgraça

fome nos lábios
fome nos olhos

ossadas brancas
urubus em volta

terra em brasa
ar calcinado

plantas com fome
homens com fome

fome nos olhos
no ar morte

Joffre Rocha (poeta angolano)

Papai Noel às Avessas



Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.

Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.


Carlos Drummond de Andrade (poeta brasileiro)

Natal



Com a esquadria da palavra, assento
o fogo e a lareira.
Depois reuno-vos à volta. Perto,
sobre a alvura da mesa,
escorrem do pão o pensamento
e uma luz espessa
que nos alargam as margens do silêncio,
para nos vermos com essa
alegria que nos torna atentos
até à vibração mais funda da tristeza.
Então, há uns lugares que a si mesmos
se abrem. Neles se sentam
os mortos que nos amam. E só os vemos
por estar à lareira,
que nos alarga as margens do silêncio
e prolonga confins à inteligência.
Por isso vos reuno. Vos escrevo
o fogo que aproxima a transparência.


Fernando Echevarria (poeta timorense)

2.12.09

Marinheiros ou poema dos frustados




Juro, haverá sempre em cada um,
Um marinheiro naufragado,
Portos, mulheres, até rum,
E mar sem navio e calado...

E nas noites doidas de lua,
Com algas e brisas nos olhos,
Aos bordos navegam a rua
Das flores perdidas aos molhos...

Sós, ancorados na cidade,
Com olhos de morto insepulto,
Vêem escorrer-lhes a idade,
Perdida em névoa como um vulto...

Alguns iludem no cachimbo,
O frio que já lhes demora
No outrora sonho e limbo
De uma diferente aurora...

E há o marinheiro cansado
De tão parado navegar,
Que um dia, na praia, prostrado,
Se deixa engolir pelo mar...


António Cardoso (poeta angolano)

1.12.09

Instante



... e há sonhos para nunca mais realizados
tal é o instante
preciso
que antecede a bala.

A imagem longe do caminho
flutua sobre as ondas
duma qualquer recordação banal
O peso da arma aos ombros
a monotonia dos passos
o cansaço
as folhas secas
tudo mergulhou profundamente
no sono de algo bem amado;
os nervos que há momentos estavam tensos
lançando os olhos como setas
bússola dos ruídos
repousavam uns segundos
do tempo de poesia
no instante
preciso
que antecede a bala.

E quando a bala
feriu o silêncio carregado
prostrando o homem sobre a terra
não foram assassinos que o mataram.
O guerrilheiro também vive
um tempo de poesia
como a vida de uma bala
na emboscada dos murmúrios
apenas respirados.

O guerrilheiro é terra móvel
decisão de liberdade
na pátria raivosamente escrava.


Costa Andrade (Angola)

29.11.09

Cântico de alforria

ontheroadtosantiago.jpg image by joannboma_2007

Vem, segura a minha mão
iniciemos um roteiro amargo de peregrinação:
pelo trilho batido do fundo da floresta
partamos até ao mar cruel
o mar sem fim, veículo da nossa servidão.

Não, não feches os olhos à tragédia
olha os negreiros ancorados na baía da nossa desgraça
os nossos irmãos acorrentados
como gado, sorvidos pelo negrume dos bojos insaciáveis
semelhando ventres de deuses bárbaros.
Virgínia, Alabama
Mississipi
sangue vermelho
suor de negro branqueando algodão
Cuba, Brasil
Martinica
mais sangue vermelho
suor de negro movendo engenhos de açúcar.

Eis o nosso povo sacrificado
eis a nossa gente
a nossa gente transportando mares e mares
carne da nossa carne
sangue do nosso sangue disperso pelo Mundo.

Vem, segura a minha mão serena
em passo firme caminhemos até à orla do mar algoz
escutemos as vozes perdidas na profundeza dos abismos
os ecos dos gritos abafados
congelados em pedaços de nossa carne ensangüentada
congelados em miríades de búzios abandonados ao sabor das ondas.

Vem, irmão, seca as lágrimas nas pupilas
toma a minha mão amiga
percorramos o mesmo trilho batido do fundo da floresta
na jornada de regresso que nosso povo não caminhou
e à volta da árvore milenar à beira do caminho
saudemos a alforria ansiada pela nossa geração.

Joffre Rocha (poeta angolano)

Cântico de alforria

ontheroadtosantiago.jpg image by joannboma_2007

Vem, segura a minha mão
iniciemos um roteiro amargo de peregrinação:
pelo trilho batido do fundo da floresta
partamos até ao mar cruel
o mar sem fim, veículo da nossa servidão.

Não, não feches os olhos à tragédia
olha os negreiros ancorados na baía da nossa desgraça
os nossos irmãos acorrentados
como gado, sorvidos pelo negrume dos bojos insaciáveis
semelhando ventres de deuses bárbaros.
Virgínia, Alabama
Mississipi
sangue vermelho
suor de negro branqueando algodão
Cuba, Brasil
Martinica
mais sangue vermelho
suor de negro movendo engenhos de açúcar.

Eis o nosso povo sacrificado
eis a nossa gente
a nossa gente transportando mares e mares
carne da nossa carne
sangue do nosso sangue disperso pelo Mundo.

Vem, segura a minha mão serena
em passo firme caminhemos até à orla do mar algoz
escutemos as vozes perdidas na profundeza dos abismos
os ecos dos gritos abafados
congelados em pedaços de nossa carne ensangüentada
congelados em miríades de búzios abandonados ao sabor das ondas.

Vem, irmão, seca as lágrimas nas pupilas
toma a minha mão amiga
percorramos o mesmo trilho batido do fundo da floresta
na jornada de regresso que nosso povo não caminhou
e à volta da árvore milenar à beira do caminho
saudemos a alforria ansiada pela nossa geração.

Joffre Rocha (poeta angolano)

27.11.09

Canção do navio negreiro



Depois da chuva
os meninos em bando
largavam a lagoa
vinham brincar a navegação
Do pequeno porto
saíam então gasolinas dongos
navios de grande calado até
feitos uns de bimba
mafumeira
outros de tampa
de cartão.
Vovô Bartolomeu
gostava de parar
a olhar esses navios
como que em maravilha
estivesse vendo
sei lá
um mar todinho verdade.
Um dia Juca Mulato
lhe procurou
que barco era esse
navegando ao largo
com formigões na proa
e grandes velas
pandas.
«Esse - disse o velho coçando
o queixo - é mesmo
navio negreiro.

João Maria Vilanova (poeta angolano)

Regresso



Andam no ar
Poemas negros
De cor amarga
Misturados à voz rouca
Dos camiões.
Desertas
Frias
Despidas
As cubatas esperam:
Mulheres e homens,
Nas cubatas,
Vozes
Riem
Escutam
Choram
Histórias iguais a muitas.

Nalgumas
O pranto
Inda é maior.

Costa Andrade (poeta angolano)

26.11.09

Poema panfletário



Duras serão as pedras no chão que pisaremos.
Por serem duras é que abandonei
Os caminhos movediços
Deste mundo em agonia...

Suaves serão as palavras que falaremos.
Por serem suaves é que abandonei
Os caminhos movediços
Deste mundo em agonia...

Pedras e palavras: certas, necessárias
Duras, suaves e seguras.
E uma casa nova.
E caminhos novos de alegria...


António Cardoso (poeta angolano)




25.11.09

O poema que te não sei fazer



Tenho um poema todo negro no cérebro.
Um sabor a sangue
Do poema vermelho da boca.
Uma ânsia louca e branca
Do poema róseo
Que me ofereces sôfrega e eterna
Ao artista que sou.

A!, fora eu mágico
E com esta sinfónica paleta
Musicar-te-ia o poema
Que fizesse de ti a rainha
De um tão pobre escravo-poeta.



António Cardoso (poeta angolano)

24.11.09

Oh Calcutá



Teus pássaros
oh Calcutá

voam dos beirais em bandos
voláteis num alvoroço
de gritos roucos quase

humanos
contra a vidraça

Teus pássaros
oh Calcutá

um deus búdico nu
e sentado nos devolveu
num gesto vago

ausente solto
do nada

David Mestre (poeta angolano)

21.11.09

Blues




Tua voz desliza como um pássaro aberto na lâmina do dia
ilha que se levanta e voa a partir do Sol
lamento gritado da floresta por sua gazela perdida
choro grande do vento nas montanhas
ao nascimento de um escravo mais na história do vale

Tua voz vem de dentro da cidade
de todas as ruas bairros e leitos da cidade onde houver
um calor de pernas
contar o silêncio das horas guardadas a soco no sarilho
dos ventres
com um jazzman a assobiar na escuridão dos pares
a memória ácida do chicote
nos porões do Mundo

David Mestre (poeta angolano)

20.11.09

Arte poética



Que erosão
no choque genésico das marés
de encontro às pedras habitadas.

Cai areia na areia.

Assim o gasto da palavra
limando os duros conformismos
libertando as verdades mais remotas
tão necessárias ao fruir dos gestos.


João Maimona (poeta angolano)

19.11.09

Frutos



Que frutos feios os da Europa:
Não têm nome, nem têm cor,
Não tem cheiro, nem sabor.

Maracujá maboque
Abacate sapessape

Soam redondos na boca,
Cheiram nos olhos e na memória

Sôfrega,
Sôfrega...


António Cardoso (poeta angolano)

O homem que vinha ao entardecer



(Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)


Falava com devagar, ajeitando as
palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.

Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)
Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava
que doía.


José Eduardo Agualusa (poeta angolano)

Escrevemos Docemente


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Escrevemos docemente. Se a figura
sobe de estar tão funda a essa mesa
é que escrever se lembra. E só da altura
de se lembrar percorre a linha acesa

a ponta de escrever, que traça a pura
forma de rosto que abre na tristeza.
E a tristeza ilumina de escultura
penumbras de volumes com que pesa.

Por isso é docemente que da linha
de estar ali aonde sempre esteve
aparece figura de rainha

que sempre foi e agora só se escreve.
E escrevermos é como se na vinha
o sol se iluminasse. E fosse breve.

Fernando Echevarría (poeta timorense)



18.11.09

Poema do regresso



Quando eu voltar da terra do exílio e do silêncio,
não me tragam flores.

Tragam-me antes todos os orvalhos,
lágrimas de madrugadas que presenciam dramas.
Tragam-me a fome imensa de amor
e o queixume dos sexos túrgidos na noite constelada.
Tragam-me a noite longa de insônia
com mães chorando de braços vazios de filhos.

Quando eu voltar da terra do exílio e do silêncio,
Não, não me tragam flores...

Tragam-me apenas, isso, sim,
o último desejo dos heróis tombados ao amanhecer
com uma pedra sem asas na mão
e um fio de cólera a esgueirar-se dos olhos.

Joffre Rocha (poeta angolano)

Os rios atónitos



(Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)


Há palavras a dormir sobre o seu largo
assombro
Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo
é como se houvesse pronunciado os próprios rios

Ou seja, as águas
pesadas de lama, os peixes todos e os perigos
inumeráveis
O musgo das margens, o escuro
mistério em movimento.

Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre
Lento
em tua boca.

Dizes Quanza
e o ar se preenche de perfumes perplexos.

E dizes Congo
e onde o dizes há grandes aves
e súbitos sons redondos e convexos.

E dizes Quanza, ou dizes Congo
e sempre que o dizes acorda em torno
um turbilhão de águas:
a vida, em seu inteiro e infinito assombro.


José Eduardo Agualusa (poeta angolano)

17.11.09

Vieram muitos...



"A massambala cresce a olhos nus"

Vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.

Vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranqüilas águas do lago.
Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.

Ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a olhos nus.

Partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeira
levaram o gado gordo e as raparigas.


Ana Paula Tavares (poetisa angolana)
in O lago da lua

14.11.09

Canto de nascimento



Aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.

As mãos criam na água
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças deleite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.
Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio

enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite.


Ana Paula Tavares (poetisa angola)
(in O lago da lua)

12.11.09

A casa



Aqui projectei a minha casa:
alta, perpetua, de pedra e claridade.
O basalto negro, poroso
viria da Mesquita.
Do Riboque o barro vermelho
da cor dos ibiscos
para o telhado
Enorme era a janela e de vidro
que a sala exigia um certo ar de praça.
O quintal era plano, redondo
sem trancas nos caminhos.
Sobre os escombros da cidade morta
projectei a minha casa
Recortada contra o mar.
Aqui.
Sonho ainda o pilar –
uma rectidão de torre, de altar.
Ouço murmúrios de barcos
na varanda azul
E reinvento em cada rosto fio
a fio
as linhas inacabadas do projecto.

Conceição Lima (poetisa sãotomense)

3.11.09

Proposta



Apaguem os canaviais, os cacauzais, os cafezais
Rasurem as roças e a usura de seus inventores
Extirpem a paisagem da verde dor de sua íris
E eu vos darei uma narrativa obliterada
Uma esparsa nomenclatura sedenta de heróis.

Conceição Lima (poetisa sãotomense)


2.11.09

Eu e os passeantes



Passa um inglesa,
E logo acode,
Toda supresa:
What black my God!

Se é espanhola,
A que me viu,
Diz como rola:
Que alto, Dios mio!

E, se é francesa:
Ó quel beau negre!
Rindo para mim.

Se é portuguesa,
Ó Costa Alegre!
Tens um atchim!

Costa Alegre (poeta sãotomense)

31.10.09

Zálima Gabon



Falo destes mortos como da casa, o pôr-do-sol, o curso d’água.
São tangíveis com suas pupilas de cadáveres sem cova
a patética sombra, seus ossos sem rumo e sem abrigo
e uma longa, centenária, resignada fúria.

Por isso não os confundo com outros mortos.

Porque eles vêm e vão mas não partem
Eles vêm e vão mas não morrem.

Permanecem e passeiam com passos tristes
que assombram a lama dos quintais
e arrastam a indignidade da sua vida e sua morte
pelo ermo dos caminhos com um peso de grilhões.

Às vezes, sentados sob as árvores, vergam a cabeça e choram.

Erguem-se depois e marcham com passos de guerrilha
Não abafem o choro das crianças, não fujam
Não incensem as casas, não ocultem a face
Urgente é o apelo que arde por onde passam
Seus corações deambulam à sombra nas plantações.

Por isso não os confundo com outros mortos
apaparicados com missas, nozadu, padres-nossos.

Por remorso, temor, agreste memória
Por expiação de culpa, ambígua caridade
aos mortos-vivos ofertamos a mesa do candjumbi
feijão-preto, mussambê, puíta, ndjambi.

Para aplacar sua sede de terra e de morada
Para acalmar a revolta, a espera demorada.

Eles porém marcharão sempre, não dormirão
recusarão a tardia paz da sepultura, o olvido
acesa sua cólera antiga, seu grito fundo
ardente a aflição do silêncio, a infâmia crua.

Eis por que vigiam estes mortos a nossa praça
seu é o aviso que ressoa no umbral da porta
na folhagem percutem audíveis clamores
a atormentada ternura do sangue insepulto.

Conceição Lima (poetisa sãotomense)


30.10.09

Nova Lira – Canção



Quem embarcou no porão
Fechado a sete chaves,
Apertado entre traves,
Sem ver sol sem ver a lua?
Foi o preto!

Quem deixou a terra,
-filho ingrato que fugiu
ao pai e à mãe que não mais viu,
p’ra ir acabar como um cão?
Foi o preto!

Quem a mata derrubou,
E cavou e semeou
E co’a sua mão de bruto
Cuidou, recolheu o fruto?
Foi o preto!

Quem fez o ‘senhor ’– o patrão;
Lhe tirou da vida aflita
Lhe deu senhora bonita
E importância e situação?
Foi o preto!

Marcelo Veiga (poeta sãotomense)

29.10.09

O novo canto da mãe




Mãe:
Nós somos os teus filhos
Que sem vergonha
Quebraram as fronteiras do silêncio.
Os filhos sem manhãs
Que rasgaram as noites que cobriam
As carnes das tuas carnes.

Nós somos, Mãezinha,
Os teus filhos,
Os pés descalços,
Esfomeados,
Os meninos das roças,
Do cais,
Os capitães d’areia,
Os meninos negros à margem da vida,
Que despedaçaram o destino do teu ventre,
Que endireitaram os instantes
Que marcaram socalcos na terra firme,
Na profundidade das trevas da tua vida.

Nós somos, Mãezinha, os teus filhos,
Sexos que germinaram vida,
Forças que desfloraram a virgindade dos dogmas,
Fecundaram minérios de esperança,
Olhos, dinamite de amor,
Mãos que esfacelaram a espessura dos obós,

E em cujo silêncio verde
Germina a CERTEZA.

Mãezinha,
Nós somos os teus filhos.


Tomás Medeiros(Poeta sãotomense)

27.10.09

Beijos-de-mulata


(Para a ZEZA)


Os beijos-de-mulata
não têm perfume
Apenas
a limpidez do seu desejo
branco

Ou
uma concêntrica fúria
acesa de tacula-roxo-carmesim
além de ser
a melhor droga contra o câncer.

Pra que perfume...?
Onde elas crescem
morrem as outras plantas...


Arnaldo Santos (poeta angolano)