31.1.09

Serenata

Repara na canção tardia
que tìmidamente se eleva,
num arrulho de fonte fria.

O orvalho treme sôbre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.

Repara na canção tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.

É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.

Repara na canção tardia
que por sôbre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.

E nessas letras tão pequenas
o universo inteiro perdura.

E o tempo suspira na altura
por eternidades serenas.


Cecília Meireles (poetisa brasileira)



30.1.09

O búzio



Fecha só os olhos meu amor. E devagar
escuta os mesmos sons. A água
escorre para a sede quente:
areia de pés nus.

Encosta só o ouvido. Respira
esta harmonia deste corpo. Os mesmos sons
projectos do tamanho deste mar.

Suave esta espiral. Flauta de ruídos
para ouvir.
E não se parte o corpo. Só pelos sons
os mesmos sons. Tocata para um dia.

Escuta. Compara. Não vês a diferença
entre o cantar e o ser
de uma alegria?


Manuel Rui (poeta angolano)

29.1.09

O cercado



De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p'ra lá do cercado


Ana Paula Ribeiro Tavares (poetisa angolana)

28.1.09

Essa pavana



Essa pavana é para uma defunta
infanta, bem-amada, ungida e santa,
e que foi encerrada num profundo
sepulcro recoberto pelos ramos

de salgueiros silvestres para nunca
ser retirada desse leito estranho
em que repousa ouvindo essa pavana
recomeçada sempre sem descanso,

sem consolo, através dos desenganos,
dos reveses e obstáculos da vida,
das ventanias que se insurgem contra

a chama inapagada, a eterna chama
que anima esta defunta infanta ungida
e bem-amada e para sempre santa.

Jorge de Lima (poeta brasileiro)

24.1.09

Não conheço nada do país do meu amado



Não conheço nada do país do meu amado
Não sei se chove, nem sinto o cheiro das
laranjas.
Abri-lhe as portas do meu país sem perguntar nada
Não sei que tempo era
O meu coração é grande e tinha pressa
Não lhe falei do país, das colheitas, nem da seca
Deixei que ele bebesse do meu país o vinho o mel a carícia
Povoei-lhe os sonhos de asas, plantas e desejo
O meu amado não me disse nada do seu país
Deve ser um estranho paíso país do meu amado
pois não conheço ninguém que não saiba
a hora da colheita
o canto dos pássaros
o sabor da sua terra de manhã cedo
Nada me disse o meu amado
Chegou
Mora no meu país não sei por quanto tempo
É estranho que se sinta bem
e parta.
Volta com um cheiro de país diferente
Volta com os passos de quem não conhece a pressa.

Ana Paula Ribeiro Tavares (poetisa angolana)

20.1.09


Nova canção da vida




O meu ideal, a minha felicidade,
é ter uma cubata, mesmo ali
dentro do mato, longe da cidade,
mas sempre, meu amor, ao pé de ti.

O culto da cidade em desprezo do mato!
Eu não conheço nenhum mal maior.
O meu ideal é este, e nele me retrato:
– o mato, uma cabana, o nosso amor...

Ter um jardim cercando o nosso lar
(é lar uma cubata se Deus quer
que nela, sempre, o homem e a mulher,
em sonho e obra, sejam par e par);

ter lavras de feijão e de batatas,
de milho, de ginguba e de mandioca,
para nós dois e para quanta boca
de fome houvesse ali pelas libatas;

gozar o bucolismo das paisagens
(aqui, uma palmeira; além, uma mulemba...);
e admirar a loucura infantil dos selvagens
no prazer da rebita e da massemba;

ter mesmo ao pé da casa uma mangueira,
que desse sombra e fruto ao cansado viajor;
de dia, trabalhar em lida meeira;
à noite, adormecer na benção do Senhor...

– Vamos viver assim a vida inteira,
vamos viver assim, ó meu amor!


Geraldo Bessa Victor (poeta angolano)

18.1.09

Pelo silêncio



Pelo silêncio que a envolveu, por essa
aparente distância inatingida,
pela disposição de seus cabelos
arremessados sobre a noite escura:

pela imobilidade que começa
a afastá-la talvez da humana vida
provocando-nos o hábito de vê-la
entre estrelas do espaço e da loucura;

pelos pequenos astros e satélites
formando nos cabelos um diadema
a iluminar o seu formoso manto,

vós que julgais extinta Mira-Celi
observai neste mapa o vivo poema
que é a vida oculta dessa eterna infanta.

Jorge de Lima (poeta brasileiro)

16.1.09

Música


Noite perdida,
Não te lamento:
embarco a vida

no pensamento,
busco a alvorada
do sonho isento,

puro e sem nada,
— rosa encarnada,
intacta, ao vento.

Noite perdida,
noite encontrada,
morta, vivida,

e ressuscitada...
(Asa da lua
quási parada,

mostra-me a sua
sombra escondida,
que continua
a minha vida

num chão profundo!
— raíz prendida
a um outro mundo.)

Rosa encarnada
do sonho isento,
muda alvorada

que o pensamento
deixa confiada
ao tempo lento...

Minha partida,
minha chegada,
é tudo vento...

Ai da alvorada!
Noite perdida,
noite encontrada...

Cecília Meireles (poetisa brasileira)

12.1.09


Elogio da uisna

e de Sophia de Melo Breiner Andresen




O engenho banguê (o rolo compressor,
mais o monjolo, a moela de galinha,
e muitas moelas e moendas de poetas)
vai unicamente numa direção: na ida.
Êle faz quando na ida, ou ao desfazer
em bagaço e caldo; ele faz o informe;
faz-desfaz na direção de moer a cana,
que aí deixa; e que de mel nos moldes
madura só, faz-se: no cristal que sabe,
o do mascavo, cego (de luz e corte).

2.

Sofia vai de ida e de volta (e a usina);
ela desfaz-faz e faz-refaz mais acima,
e usando apenas (sem turbinas, vácuos)
algarves de sol e mar por serpentinas.
Sofia faz-refaz, e subindo ao cristal,
em cristais (os dela, de luz marinha).


João Cabral de Melo Neto (poeta brasileiro)

11.1.09

Felizes
Happy Girls II Art Print by Marta Arnau

Felizes. Porque, ao fundo de si mesmos,
cheios andam de quanto vão pensando.
E, disso cheios,
nada mais sabem. Dão para aquele lado
onde o mundo acabou, mas resta o eco
de o haverem pensado até ao cabo
e irem agora criar o movimento
que subsiste no tempo
de o mundo ainda estar a ser criado.
Por isso são felizes. Foram sendo
até, perdido o tempo, só em memória o estarem
[habitando.

Fernando Echevarría (poeta timorense)

6.1.09

Cenário


Passei por essas plácidas colinas
e vi das nuvens, silencioso, o gado
pascer nas solidões esmeraldinas.

Largos rios de corpo sossegado
dormiam sobre a tarde, imensamente,
- e eram sonhos sem fim, de cada lado.

Entre nuvens, colinas e torrente,
uma angústia de amor estremecia
a deserta amplidão na minha frente.

Que vento, que cavalo, que bravía
saudade me arrastava a esse deserto,
me obrigava a adorar o que sofria?

Passei por entre as grotas negras, perto
dos arroios fanados, do cascalho
cujo ouro já foi todo descoberto.

As mesmas salas deram-me agasalho
onde a face brilhou de homens antigos,
iluminada por aflito orvalho.

De coração votado a iguais perigos
vivendo as mesmas dores e esperanças,
a voz ouvi de amigos e inimigos

Vencendo o tempo, fértil em mudanças,
conversei com doçura as mesmas fontes,
e vi serem comuns nossas lembranças.

Da brenha tenebrosa aos curvos montes,
do quebrado almocafre aos anjos de ouro
que o céu sustêm nos longos horizontes,

tudo me fala e entende do tesouro
arrancado a estas Minas enganosas,
com sangue sobre a espada, a cruz e o louro.

Tudo me fala e entendo: escuto as rosas
e os girassóis destes jardins, que um dia
foram terras e areias dolorosas,

por onde o passo da ambição rugia;
por onde se arrastava, esquartejado,
o mártir sem direito de agonia.

Escuto os alicerces que o passado
tingiu de incêndio: a voz dessas ruínas
de muros de ouro em fogo evaporado.

Altas capelas cantam-me divinas
fábulas. Torres, santos e cruzeiros
apontam -me altitudes e neblinas.

Ó pontes sobre os córregos! ó vasta
desolação de ermas, estéreis serras
que o sol freqüenta e a ventania gasta!

Armado pó que finge eternidade,
lavra imagens de santos e profetas
cuja voz silenciosa nos persuade.

E recompunha as coisas incompletas:
figuras inocentes, vis, atrozes,
vigários, coronéis, ministros, poetas.

Retrocedem os tempos tão velozes
que ultramarinos árcades pastores
falam de Ninfas e Metamorfoses.

E percebo os suspiros dos amores
quando por esses prados florescentes
se ergueram duros punhos agressores.

Aqui tiniram ferros de correntes;
pisaram por ali tristes cavalos.
E enamorados olhos refulgentes

- parado o coração por escutá-los
prantearam nesse pânico de auroras
densas de brumas e gementes galos.

Isabéis, Dorotéias, Eliodoras,
ao longo desses vales, desses rios,
viram as suas mais douradas horas

em vasto furacão de desvarios
vacilar como em caules de altas velas
cálida luz de trêmulos pavios.

Minha sorte se inclina junto àquelas
vagas sombras da triste madrugada,
fluidos perfis de donas e donzelas.

Tudo em redor é tanta coisa e é nada:
Nise, Anarda, Marília...- quem procuro?
Quem responde a essa póstuma chamada?

Que mensageiro chega, humilde e obscuro?
Que cartas se abrem? Quem reza ou pragueja?
Quem foge? Entre que sombras me aventuro?

Quem soube cada santo em cada igreja?
A memória é também pálida e morta
sobre a qual nosso amor saudoso adeja.

O passado não abre a sua porta
e não pode entender a nossa pena.
Mas, nos campos sem fim que o sonho corta,

vejo uma forrma no ar subir serena:
vaga forma, do tempo desprendida.
É a mão do Alferes, que de longe acena.

Eloqüência da simples despedida:
"Adeus! que trabalhar vou para todos!..."
(Esse adeus estremece a minha vida.)


Cecília Meireles (poetisa brasileira)
Oh flor da noite



Oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde

teus olhos
não são estrelas
não são colibris

teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um passado se esconde

teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um futuro se forma

oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde

teus olhos
não são estrelas
não são colibris

Arlindo Barbeitos (poeta angolano)

Mãos esculturais


image


Além deste olhar vencido
cheio dos mares negreiros
fatigado
e das cadeias aterradoras que envolvem lares
além do silhuetar mágico das figuras
nocturnas
após cansaços em outros continentes dentro de África

Além desta África
de mosquitos
e feitiços sentinelas
de almas negras mistério orlado de sorrisos brancos
adentro das caridades que exploram e das medicinas
que matam

Além África dos atrasos seculares
em corações tristes

Eu vejo
as mãos esculturais
dum povo eternizado nos mitos
inventados nas terras áridas da dominação
as mãos esculturais dum povo que constrói
sob o peso do que fabrica para se destruir

Eu vejo além África
amor brotando virgem em cada boca
em lianas invencíveis da vida espontânea
e as mãos esculturais entre si ligadas
contra as catadupas demolidoras do antigo

Além deste cansaço em outros continentes
a África viva
sinto-a nas mãos esculturais dos fortes que são povo
e rosas e pão
e futuro.



Agostinho Neto (poeta angolano)

4.1.09

N'um Batuque



N'um batuque hontem andei,
onde vi certa morena,
tão gentil era a pequena
que nem eu dizel-o sei
- Como está? lhe perguntei
logo que de perto a vi,
- Quer dansar? lhe repeti,
não se acanhe minha bella, -
- tunda bobo, me disse ella,
Ou antes: - Saia d'aqui
- Seja meu par, oh menina
não se zangue por tão pouco;
- Uá salúcia, é você um louco,
Gámessenâ'me qu'quina
- D'esse olhar a luz divina
fascinado me deixou!
se um beijinho, só, lhe dou
gozarei prazer infindo,
- Quicolá, me disse, rindo,
logo de mim, se affastou.
- Por que foge? venha cá,
porque só me deixa aqui?
- Uá móno... mundele inhi...
Guamiâne... ndé cuná
- Por favor, não se vá já,
é ainda, muito cedo,
- Quiússuca, disse a medo
a moreninha tão linda
Caté mungo, disse ainda,
e retirou-se em segredo...

Eduardo Neves (poeta angolano)
Batucada na noite


Bissau cresce
quando o sol desce
vem com o fio da noite
e só adormece
quando amanhece

O álcool
e o week-end
inflamam corpos
cheios de adornos

Na noite
há insónias
e sónias de muitos nomes
não é só o mote
aqui há funky
há merengada
e antilhesas na madrugada
Lufadas de amor
moldam corpos
suarentos de ardor
há um saracoteio
permanente
na passarelle da noite
sedas flutuantes
coxas remexendo
num sincopado
que dá síncope

O odor
mastiga o ar
sem pudor mistura-se
confunde-se
catinga
chanel
paco rabane
água cheiro
suor
e dior
ça va comme ça…
O old scotch
dá o toque final
É fatal
afinal porque não…

A batucada cresce
abre o espaço
a cidade não dorme.


Tony Tcheca (poeta guineense)
Tecto de Silêncio



Ergo a minha voz
e firo o tecto de silêncio
nego a morte de crianças
porque há míngua de medicamentos

Na angústia
liberto o verbo
mordo o pólen da desgraça
que grassa
nesta África desventurada
em obra
e graça
Subdesenvolvendo-se

Coloco andaimes
nos alicerces do tempo
Perscruto os ventos
Circunciso as ondas
Nego a convivência da paciência
que amordaça a fala
e cala o sentimento

Exorcizo o paludismo
Apeio a poliomielite
Amputo a desgraça
e eis a graça da criança
florescendo a vida.

Tony Tcheka (poeta guineense)


Terra Prometida



Somos filhos da terra prometida
a marcha indelével
de um destino cansado
seguimos o clarão luminoso
escrito de sonhos matinais

Somos a jovem flor
plantada em Boé
a Pátria que se espreguiça
(esperamos imortal)
com veias de criança
voz da selva aromática
e mãos de poeta

Somos filhos de nós
esperanças mil vezes frustradas
mas nos corpos esqueléticos
e faces sem futuro
já desabrocha outra vida
rosa na terra e no mar


Julião Soares Sousa (poeta guineense)

3.1.09

É inutil chorar



É inutil mesmo chorar
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»

por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
O importante neles é já se sentir a verdade
de lutar por ela.
Por isso é inútil chorar.

Ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
Ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo...

Mas o que importa é não chorar.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»

Mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor ilumina
Que cada um de nós
lance a lenha que tiver
mas que não chore
embora tenha frio.

«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»


António Cardoso (poeta angolano)

2.1.09

Terra Tísica



terra sahel
vento
cinzento
esboçando
voos amargos
movediços
esperança a esvaiar
das alturas do futa djalon

-o bombolom
lamina ventos
anuncia eventos
repica forte
e geme
no corpo
do vento saheliano

dores saheis
em contravento
a seca
é um gemido ululante
sublimado
nas cordas adelgaçadas
do nhanhero griot

a chuva
que o vento
levou
mora no imaginário
sumido
de um choro
sem tambores
sem cana sem
lágrimas

o vento
deixou-nos
a ânsia gotejando
no pulmão da terra tísica


Tony Tcheka (poeta guineense)
Vinte de Fevereiro


Aos meus companheiros João Carlos, João Conduto,
Amadeu Cardoso, Quecuta Mané e outros...


Amanheci num interrogatório
de trinta e cinco perguntas
o medo e o terror invadiram meus passos
nos corredores silenciosos

Veio-me à memória
o cativeiro
o rosto da mamã triste
por entre as flores do Ministério
o chilrear dos pássaros
e o sol abrasador que se anuncia

Veio-me à memória
distante em dias contados
o Vinte de Fevereiro
a manhã em que fomos apenas
flores da nossa luta
e outros slogans.

Julião Soares Sousa (poeta guineense)