28.2.09

Mulher proletária


Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.

Jorge de Lima (poeta brasileiro)

27.2.09

O grande desafio




Naquele tempo
A gente punha despreocupadamente os livros no chão
ali mesmo naquele largo - areal batidos dos caminhos passados
os mesmos trilhos de escravidões
onde hoje passa a avenida luminosamente grande
e com uma bola de meia
bem forrada de rede
bem dura de borracha roubada às borracheiras do Neves
em alegre folguedo, entremeando caçambulas
... a gente fazia um desafio...
O Antoninho
Filho desse senhor Moreira da taberna
Era o capitão
E nos chamava de ó pá,
Agora virou doutor
(cajinjeiro como nos tempos antigos)
passa, passa que nem cumprimenta
- doutor não conhece preto da escola.
O Zeca guarda-redes
(pópilas, era cada mergulho!
Aí rapage - gritava em delírio a garotada)
Hoje joga num clube da Baixa
Já foi a Moçambique e no Congo
Dizem que ele vai ir em Lisboa
Já não vem no Musseque
Esqueceu mesmo a tia Chiminha que lhe criou de pequenino
nunca mais voltou nos bailes de Don´Ana, nunca mais
Vai no Sportingue, no Restauração
outras vezes no choupal
que tem quitatas brancas

Mas eu lembro sempre o Zeca pequenino
O nosso saudoso guarda-redes!
Tinha também
tinha também o Velhinho, o Mascote, O Kamauindo...
- Coitado do Kamauindo!
Anda lá na casa da Reclusão
(desesperado deu com duas chapadas na cara
do senhor chefe
naquele dia em que lhe prendeu e lhe disparatou a mãe);
- O Velhinho vive com a Ingrata
drama de todos os dias
A Ingrata vai nos brancos receber dinheiro
E traz pro Velhinho beber;
- E o Mascote? Que é feito do Mascote?
- Ouvi dizer que foi lá em S. Tomé como contratado.

É verdade, e o Zé?
Que é feito, que é feito?
Aquele rapaz tinha cada finta!
Hum... deixa só!
Quando ele pegava com a bola ninguém lhe agarrava
vertiginosamente até na baliza.

E o Venâncio? O meio-homem pequenino
que roubava mangas e os lápis nas carteiras?
Fraquito da fome constante
quando apanhava um pinhão chorava logo!
Agora parece que anda lixado
Lixado com doença no peito.
Nunca mais! Nunca mais!
Tempo da minha descuidada meninice, nunca mais!...
Era bom aquele tempo
era boa a vida a fugir da escola a trepar aos cajueiros
a roubar os doceiros e as quitandeiras
às caçambulas:
Atresa! Ninguém! Ninguém!
tinha sabor emocionante de aventura
as fugas aos polícias
às velhas dos quintais que pulávamos

Vamos fazer escolha, vamos fazer escolha
... e a gente fazia um desafio...

Oh, como eu gostava!
Eu gostava qualquer dia
de voltar a fazer medição com o Zeca
o guarda-redes da Baixa que não conhece mais a gente
escolhia o Velhinho, o Mascote, o Kamauindo, o Zé
o Venâncio, e o António até
e íamos fazer um desafio como antigamente!

Ah, como eu gostava...

Mas talvez um dia
quando as buganvílias alegremente florirem
quando as bimbas entoarem hinos de madrugada nos capinzais
quando a sombra das mulembeiras for mais boa
quando todos os que isoladamente padecemos
nos encontrarmos iguais como antigamente
talvez a gente ponha
as dores, as humilhações , os medos
desesperadamente no chão
no largo - areal batido de caminhos passados
os mesmos trilhos de escravidões
onde passa a avenida que ao sol ardente alcatroamos
e unidos nas ânsia, nas aventuras, nas esperanças
vamos então fazer um grande desafio...


António Jacinto (poeta angolano)

21.2.09

Amanhecer na Katumbela



Kukiou o dia
no canto de um passarinho do muxitu
Ouvi
e sem depressa
como quem sonha inda

vi
no Katumbela rio-sacarino
minha mangonha
canoa nas águas lentas
A sensação
de nenhum tempo
Estar

E olhei a planície o vale
lugar onde o canavial é dono
é posse
o seu silêncio
coisas homens
numa canção de abandono

E não ouvi demais
que o canto da madrugada
tinha a voz do murmúrio de kaxexe

Apenas e
lentamente
renascia em mim um novo sono

Então com de repente
despertei


Arnaldo Santos (poeta angolano)

18.2.09

Revolucionando



meu corpo suspenso da gávea
meu corpo
meu corpo colhido sob o látego
meu corpo
meu corpo levado no portão do negreiro
meu corpo
meu corpo linchado no Alabama
meu corpo
meu corpo despedaçado em Guernica
meu corpo
meu corpo despedaçado em Auschwitz
meu corpo
meu corpo mutilado em Hiroxima
meu corpo
meu corpo tombado n’água em Bate-pa
meu corpo
meu corpo aprisionado em Kasanji
meu corpo
meu corpo segredado em Shaperville
meu corpo
meu corpo baleado em Attica
meu corpo
meu corpo trespassado em My Lai
meu corpo
meu corpo metralhado em Siglo Veinte
meu corpo
meu corpo massacrado em Wiriyamu
meu corpo
meu corpo torturado em Santiago
meu corpo
meu corpo inviolável na voz do vento

João Maria Vilanova (poeta angolano)
Inverno



Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha d'água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!

Jorge de Lima (poeta brasileiro)

17.2.09

História



Entre o sonho que me tem
E as palavras necessárias,
O desespero e o desencanto
Nestes músculos que ponho
Na caneta
Das emoções várias,
Sempre ,em letra, aquém
Do que ficou pensando... Fugaz combate
Entre o desejar
E o ser ,bravio,
Sem fonte que mate
O desejo, e rio
Que me saiba nascer...
Irrealizado
Aqui deixo o esboço
Destas palavras,
Como o camponês
De que me queixo
com esforço
Nesta história:
Tanto no sonho fez e desfez
E tão pouco foi acabado!...

António Cardoso (poeta angolano)
O Artista Inconfessável



Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre o fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificilmente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.


João Cabral de Melo Neto (poeta brasileiro)

16.2.09

Borboletas de luz



borboletas de luz

esvoaçando
de cadáver em cadáver
colhem
o fedor dos mortos em
vão

e
pelos buracos da renda
dos dias
passam alacres
do mundo do esquecimento
ao país da indiferença
levando consigo
o pólen fatal
das flores da guerra

borboletas de luz

Arlindo Barbeitos (poeta angolano)
Testamento



O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!


Manuel Bandeira (poeta brasileiro)

14.2.09

Teresa Mulata!


Essa mulata Teresa
Tirada lá do sobrado
Por um preto d'Ambaca
Bem vestido,
Bem falante,
Escrevendo que nem nos livros!

Teresa Mulata
- alumbramento de muito moço -
Pegada por um pobre d'Ambaca
Fez passar muitas conversas
Andou na boca de donos e donas...

Quê da mulata Teresa?

A história da Teresa mulata...
Hum...
Vôvô Bartolomé enlanguescido em carcomida cadeira adormeceu
O sol coando das mulembeiras veio brincar com as moscas nos
[lábios
Ressequidos que sorriem
Chiu! Vôvô tá dormindo!
O moço d'Ambaca sonhando...

António Jacinto (poeta angolano)


Perspectiva


Tua passagem se fez por distâncias antigas.
O silêncio dos desertos pesava-lhe nas asas
e, juntamente com ele, o volume das montanhas e do mar.

Tua velocidade desloca mundos e almas.
Por isso, quando passaste, caiu sobre mim tua violência
e desde então alguma coisa se aboliu.

Guardo uma sensação de drama sombrio, com vozes de ondas
lamentando-me.
E a multidão das estrelas avermelhadas fugindo com o céu para longe
de mim.

Os dias que vêm são feitos de vento plácido e apagam tudo.
Dispensam a sombra dos gestos sobre os cenários.
Levam dos lábios cada palavra que desponta.
Gastam o contorno da minha síntese.
Acumulam ausência em minha vida...

Oh! um pouco de neve matando, docemente, folha a folha...

Mas a seiva lá dentro continua, sufocada,
nutrindo de sonho a morte.


Cecília Meireles (poetisa brasileira)

13.2.09

A Nossa Inteligência as Está Vendo

Words to Live By: Truth Art Print by Debbie DeWitt

A nossa inteligência as está vendo
quando, da luz da sua rodeadas,
criam a brisa pelo movimento
com que entram para o espaço das palavras.
Por ora irem mensura ainda o tempo
de aparecerem zonas sombreadas
conforme vinca músculos o lento
vaivém de luzes que organiza a marcha.
Mas caminham de fora para dentro.
Dentro de brisas diáfanas
onde, enigmático, se esconde esse silêncio
de que surdem figuras entrando nas palavras.

Fernando Echevarría (poeta timorense)

12.2.09

À Minha Terra



(No momento de avista-la depois de uma viagem.)
De leite o mar - lá desponta
Entre as vagas susurrando
A terra em que scismando
Vejo ao longe branquejar!
É baça e proeminente,
Tem d'Africa o sol ardente,
Que sobre a areia fervente
Vem-me a mente acalentar.

Debaixo do fogo intenso,
Onde só brilha formosa,
Sinto n'alma fervorosa
O desejo de a abraçar:
É a minha terra querida,
Toda d'alma, - toda - vida, -
Qu'entre gozos foi fruida
Sem temores, nem pesar.

Bem vinda sejas ó terra,
Minha terra primorosa,
Despe as galas - que vaidosa
Ante mim queres mostrar:
Mesmo simples teus fulgores,
Os teus montes tem primores,
Que às vezes falam de amores
A quem os sabe adorar!

Navega pois, meu madeiro
Nestas aguas d'esmeraldas,
Vai junto do monte ás faldas
Nessas praias a brilhar!
Vae mirar a natureza,
Da minha terra a belleza,
Que é singella, e sem fereza
Nesses plainos d'alem-mar!

De leite o mar, - eis desponta
Lá na extrema do horizonte,
Entre as vagas - alto monte
Da minha terra natal;
É pobre, - mas tão formosa
Em alcantis primorosa,
Quando brilha radiosa,
No mundo não tem igual!


José da Silva Maia Ferreira (poeta angolano)



11.2.09

Por muito tempo achei que a ausência é falta.



Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade (poeta brasileiro)


10.2.09

Poema para Carlos
Drummond de Andrade



No meio do caminho tinha uma pedra.


C.D.A.
É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio de teu caminho.

João Maimona (poeta angolano)
Conveniência


Convém que o sonho tenha margens de nuvens rápidas
e os pássaros não se expliquem, e os velhos andem pelo sol,
e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticídio

Convém tudo isso, e muito mais, e muito mais...
E por esse motivo aqui vou, como os papéis abertos
que caem das janelas dos sobrados, tontamente...

Depois das ruas, e dos trens, e dos navios,
encontrarei casualmente a sala que afinal buscava,
e o meu retrato, na parede, olhará para os olhos que levo.

E encolherei meu corpo nalguma cama dura e fria.
(Os grilos da infância estarão cantando dentro da erva...)
E eu pensarei: «Que bom! nem é preciso respirar!...»


Cecília Meireles (poetisa brasileira)



6.2.09

Viagem na Noite Longa



Na noite longa
minha alma
chora sua fome de séculos

Meus olhos crescem
e choram famintos de eternidade
até serem duas estrelas brilhantes
no céu imenso.

E o infinito se detém em mim

Na noite longa
uma remotíssima nostalgia
afunda minha alma
E eu choro marítimas lagrimas
Enquanto meu desejo heróico
de engolir os céus se alarga e já
é céu.

Tenho então a sensação
esparsamente longa de vogar no absoluto.


Mário Fonseca (poeta caboverdiano)

A Abóbora Menina




Tão gentil de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa

acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.


Ana Paula Tavares (poetisa angolana)

Repouso





(tuas asas silentes levemente pousam
sobre meus olhos
e encobrem meus medos)

lá fora é a rua;
há um grito de cal
estridente como uma buzina
e cabeças passam
esfaqueadas pelo sol

aqui - tuas asas
enormes e vaporosas
apaziguam o clima...

há uma guerra lá fora;
o nosso amor contra a guerra?
- sangue jovem de pé
pelo nosso amor

ah, tuas asas tranquilas me protegem;
deixei de escutar as bombas ...

quando sair, amor
estarei mais forte para a batalha.


João Melo (poeta angolano)
São meus estes rios




São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.

A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.

Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.

Manoel Lima (poeta angolano)



A Nelson Mandela



(Descer os degraus da Humanidade. Ver o mar
escuro do fenómeno
errante do atrito de armas. Sentir com as palavras
presas nos lábios
o perfume da discriminação distribuído a preço
derrisório em Durban,
Pretória, Soweto...Olhar na propagação de sinais
sombrios o desenho
da desunião e de outras dores inspiradas que nos
vigiam enquanto
os homens degrau a degrau sobem o horizonte cruel.
E assim surgimos
na árvore do quotidiano, quotidiano vivo,
ingrediente da nossa tragédia.)


João Maimona (poeta angolano)
A última cantiga


Num dia que não se adivinha,
meus olhos assim estarão:
e há de dizer-me: «Era a expressão
que ela ùltimamente tinha.»

Sem que se mova a minha mão
nem se incline a minha cabeça
nem a minha bôca estremeça,
— toda serei recordação.

Meus pensamentos sem tristeza
de novo se debruçarão
entre o acabado coração
e o horizonte da língua presa.

Tu, que foste a minha paixão,
virás a mim, pelo meu gôsto,
e de muito além do meu rosto
meus olhos te percorrerão.

Nem por distante ou distraído
escaparás à invocação
que, de amor e de mansidão,
te eleva o meu sonho perdido.

Mas não verás tua existência
nesse mundo sem sol nem chão,
por onde se derramarão
os mares da minha incoerência.

Ainda que sendo tarde e em vão,
perguntarei por que motivo
tudo quanto eu quis de mais vivo
tinha por cima escrito: «N ã o».

E ondas seguidas de saüdade,
sempre na tua direção,
caminharão, caminharão,
sem nenhuma finalidade.


Cecília Meireles (poetisa brasileira)

5.2.09

Anunciação


TOCA essa música de seda, frouxa e trémula,
que apenas embala a noite e balança as estrelas noutro mar.

Do fundo da escuridão nascem vagos navios de ouro,
com as mãos de esquecidos corpos quási desmanchados no vento.

E o vento bate nas cordas, e estremecem as velas opacas,
e a água derrete um brilho fino, que em si mesmo logo se perde.

Toca essa música de seda, entre areias e nuvens e espumas.

Os remos pararão no meio da onda, entre os os peixes suspensos:
e as cordas partidas andarão pelos ares dançando à-tôa.

Cessará esta música de sombra, que apenas indica valores de ar.
Não haverá mais nossa vida, talvez não haja nem o pó que fomos.

E a memória de tudo desmanchará suas dunas desertas,
e em navios novos homens eternos navegarão.

Cecília Meireles (poetisa brasileira)
HOMO ANGOLENSIS



Mastiga a própria desgraça
com ela improvisa uma farra
precisa de uma boa maka
como do ar para respirar
acha o mundo demasiado pequeno
pró seu coração
ri à toa fornica por disciplina
revolucionária
jura que um dia será potência
gosta de funje todos os sábados
e foge do trabalho na segunda
mas fica limão
quando lhe querem abusar


João Melo (poeta angolano)

4.2.09

Benguelinha



Passarinho primoroso
E gentil, plumeo cantor,
Que d'aromas tão fragrantes
Não esparzes com candor,
Quando trinas mavioso
Nesse insolito rigor
De um sol forte e constante
Suaves cantos d'amor?!

Ás vezes contemplo
Do dia no albor,
Sentir o rigor
De escravo viver;

Suspiras e gemes
Em cantos d'amor,
Ah! sê meu primor
Não queiras morrer!

Anhélas no mato
Andar pelas fragas,
Viver só de bagas,
Nos ramos dormir?

Esvoaça saltando
Na tua prisão
Ai! Tem compaixão
Não vive a carpir!

Infiltra bondoso
No meu coração
O doce condão -
Do meigo trinar;

Que juro contigo
Do muito viver
Comtigo morrer,
Comtigo findar!

E as azas abrindo
O plumeo cantor,
As juras d'amor,
Ouvio a sorrir -

Em magos acentos
Endeixas trinou,
Que d'alma exalou,
Que d'alma sentiu! -


José da Silva Maia Ferreira (poeta angolano)
Canto à Guiné



Guiné
sou eu
até depois da esperança

Guiné
és tu
camponês de Bedanda teimosamente
procurando a bianda na bolanha
que só encontra água na mágoa da tua
lágrima

Guiné
és tu
criança sem tempo de ser menino

Guiné
és tu
mulher-bidera
em filas de insónia
noites di kumpra pon
(mafé di aos)

Guiné
é um grito
saído de mil ais
que se acolhe n calcanhar
da terra adormecida

Mas
Guiné somos todos mesmo depois da
esperança

Tony Tcheca (poeta guineense)




Kumpra pon = noites de comprar o pão
Mafe di aos = a única alimentação/ conduto
Bidera = Revendedeira

3.2.09


Colheitas




De dez em dez anos
cada círculo
completa sobre si mesmo
uma viagem
nasce-se, brota-se do chão
e dez anos depois o primeiro
forma-se espera e cai
por gravidade
ao vigésimo oitavo dia

entre dez em dez anos
prepara-se
para a semente
a terra
aos vinte surge
o arado
a chuva
o sorriso
Alguns dez anos depois
espera-se o fim
de vinte e oito
em
vinte e oito dias


Ana Paula Ribeiro Tavares (poetisa angolana)
O Moringue



O sol que queima as folhas das palmeiras
E os pés caminhantes sobre a areia
O sol que traz o vento e afasta o peixe
Ele não esquentará a água do moringue.
Não há sol no canto desta casa
Há sombras dos luandos que fazem as paredes
A areia do chão traz a frescura da terra
Os caniços do luando têm a frescura
Que trouxeram das terras de Cabíri
Quando, de andar nas canoas, voltamos do mar
E a garganta vem a arder como se era sal
A água do moringue sabe-nos como nada mais.

E, a quem nos pede, com o coração alegre,
Nós a oferecemos, nas canecas de esmalte.

Henrique Guerra (poeta angolano)

2.2.09

E o poeta falou


Falei da ambição
dos homens
era já dia
falei da paz
do grito de Angola
do homem sem rosto
da criança que virou velho

Falei do homem-bicho
outros falaram do bicho-homem
essa coisa sem cabeça
nem coração
outros e mais outros
falaram do mundo-cão
onde a ambição
fala mais alto que o coração

Clamei pelas crianças de Moçambique
vi-me nas ilhas sem nome
chorando a angústia alheia
enquanto isso
o bicho-homem
vestido de homem-bicho
caminhava para a minha moransa*

Esse homem sem cabeça
coração na planta dos pés
que a todos leva ao sepulcro
a sete pés
debaixo da terra
pisou o meu chão
calcou a minha gente
não precisava de um pelotão
apenas ter ambição nos olhos
ódio nas mãos
e tocar o bombolon** da morte

Maria Odete da Costa Soares Semedo (poeta guineense)




*Moransa - aglomerado de casas pertencente a uma família extensa
**Bombolon - instrumento de percussão
A garrafa



Que importa o caminho
da garrafa que atirei ao mar?
Que importa o gesto que a colheu?
Que importa a mão que a tocou
— se foi a criança
ou o ladrão
ou filósofo
quem libertou a sua mensagem
e a leu para si ou para os outros.

Que se destrua contra os recifes
eu role no areal infindável
ou volte às minhas mãos
na mesma praia erma donde a lancei
ou jamais seja vista por olhos humanos
que importa?
... se só de atirá-la às ondas vagabundas
libertei meu destino
da sua prisão?...



Manuel Lopes (poeta caboverdiano)
Inclinação do tempo



à tarde com as sombras inclinadas
nos prédios nas paredes
as aves perpetuam o regresso
do tempo que decai

as aves que se inclinam na distância
das sombras desta tarde
cai a tarde com as aves e o tempo.
detrás da nua cortina

a esquina da tua face inclinada
tecida sobre o tempo
uma ave borda o voo na toalha

a linha branca e a azul
a cor do céu azul da cor do céu
inclina o voo da ave.


descanso a ave no tempo inclinado.


José do Nascimento Félix (poeta angolano)

1.2.09

Imprecisão



À MimiTchum Mi-Liem


“Teu olhar é corsário destemido de aventura
Nómada de oceanos
Ternura em traço leve
Leve traço de ternura

Teu rosto é concha de caranguejo
Abrigo de procelas
Beijo em terra longe
Terra longe num beijo

Tuas mãos são gomil de mestiçagem
Telas de delírio
Paisagens de horizonte
Horizontes de paisagem"


Olinda Beja (poetisa sãotomense)