30.6.09

Da inquieta esperança



Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu... quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.

Mário Quintana (poeta brasileiro)

27.6.09

A Velhice é um Vento

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A velhice é um vento que nos toma
no seu halo feliz de ensombramento.
E em nós depõe do que se deu à obra
somente o modo de não sentir o tempo,
senão no ritmo interior de a sombra
passar à transparência do momento.
Mas um momento de que baniram horas
o hábito e o jeito de estar vendo
para muito mais longe. Para de onde a obra
surde. E a velhice nos ilumina o vento.

Fernando Echevarría (poeta timorense)

26.6.09

na transparência da tardinha


na transparência da tardinha
que
impávidos imbondeiros sombreiam

cantar de galinha do mato
é
eco de um tempo
em
que ilusão e verdade
cirandavam alheias ao mundo

a esperança medrava verde
verde
como rebento de capim de outubro

na transparência da tardinha
que
impávidos imbondeiros sombreiam


Arlindo Barbeitos (poeta angolano)

20.6.09

Trouxe as flores



Trouxe as flores
Não são todas branças,mãe
Mas são as flores frescas da manhã
Abriram ontem
E toda a noite as guardei
Enquanto coava o mel
E tecia o vestido
Não é branco, mãe
Mas serve à mesa do sacrifício
Trouxe a tacula
Antiga do tempo da avó
Não é espessa, mãe
Mas cobre o corpo
Trouxe as velas
De cera e asas
Não são puras, mãe
Mas podem arder toda a noite
Trouxe o canto
Não é claro, mãe
Mas tem os pássaros certos
Para seguir a queda dos dias
Entre o meu tempo e o teu.


Ana Paula Ribeiro Tavares (poetisa angolana)


Nasci
com os meus lubambos*
no pescoço
Ninguém me contou
ainda os sinto.

São eles
que me fazem sofrer
os sofrimentos da erva tenra

sob as botas

velar a insônia das sementes
e cantar as lavras em bandeira

São eles
que me juntam
a quem se aquece na fogueira
e me arrastam
na mesma esteira do povo.

Nasci
com os meus lubambos
no pescoço
Não ando só
e sou sempre novo.



*LUBAMBU – grilhão, correntes.


Arnaldo Santos (poeta angolano)

17.6.09

Lágrima - Velho Tema


Ó lágrima bendita e santa e universal,
Eu te quero cantar, e este meu canto inspire-o
A feição que eu te dei, de intérprete geral
Da dor - de todo ser infalível martírio…

Que processo te faz no minério em cristal,
E na gota que luz no cálice do lírio?
Talvez tenham os dois, uma tortura igual
À tortura que funde em lágrimas o círio.

Seja embora ilusão, hei de sempre mantê-la:
- No côncavo do céu, há lágrimas astrais
E o bólide celeste é a lágrima da estrela!

Malfadadas irmãs! - são lágrimas iguais:
A resina que cobre as árvores fendidas
E a lágrima de dor das íntimas feridas!

Jorge de Lima (poeta brasileiro)

4.6.09

Concerto de “DJUNTA MON”


I


A dor encosta-se a mim
abraça-me forte
espalha-se pelo corpo
em glândulas de fome

Enfermo
declino o convite
para a grande festa da liberdade
Estou no meu tempo
no meu espaço
na minha tabanca
onde festa
não cabe
Grassa o choro
a doença
crianças morrendo
dia a dia
hora a hora!


II


Não…
Não vou a Berlim
ver o muro em pedaços
Viajo sim no olhar desesperado
do menino moçambicano
nicando a raiz seca
que desistiu de crescer
para morrer na boca pequena

Na África-tabanca
morre-se
aos pedaços
e
pedaços que não são saudades
da minha herdade
deixo-os fluir ao vento
até que a história
faça a contrição
do tempo madrasta

III


Mas se amanhã levantarem o cerco
que nos tolhe o sol
prometo
que
levarei os nossos cikós
os nossos tambores
os nossos djidius
e
com os vossos pianos e saxs
dançaremos na voz de Sinatra Pavaroti
Nina Simone e Milles Davies
no cume da estátua da liberdade

O batuque terá o sabor
das pedras ontem feitas muro
e de cada pedaço da vergonha caída
nascerá um tambor para o concerto
de djunta-mon!

Tony Tcheca (poeta guineense)

Pensar a história e ser pensado nela
sendo ela pensada noutra parte
com a nossa a, se possivel, vê-la
no nó especular de onde ela parte.

E, alem do nó, o azul rasga a janela
e nele se move, sem lugar, amar-te
sendo amado de ti, como uma estrela
no pensamento de que não se aparte.

Ou arruina-se a mágoa, a perspectiva
e o próprio azul por onde se mover
é amar-te numa história viva

que ainda nao soubemos escrever.
Porque escrevê-la a ensombra e a deriva
para a seguirmos como ja não é.


Fernando Echavarria (poeta timorense)

3.6.09

Uma menina está a chorar




Mãe, o Natal já está chegar
O menino Jesus vai nascer mais uma vez,
mas Bete ainda vive na casa feita com lona
e a mão do meu irmão ainda suzo com sangue.

Bete é a minha amiga melhor de todos,
ela tem idade como eu, nós entrámos na escola primária juntos,
nós chorámos quando vemos falecimento do pai dela
emquanto o fogo queimar a casa deles até muito queimado.

O pai dela moreu por causa de pessoas lhe matou,
matou-lhe porque este senhor é de Lorosae.
Eles não têm oportunidade refugiar para montanha
como outros delocados fuziram de um lugar para outro lugar.
Bete com sua família é vizinho bom,
como é que vocês começa odi eles de repente?
Nós todos que estamos aqui somos pobres...
vocês todos agora mau coracão, eu acho

Os Jovens de bairro que queimar,
o meu irmão própio também ajuda.
Para isto que vocês lutaram?
Estou farta, quero mudar minha vida..

Vocês não bando não obriga ele fica em casa,
vocês deixa-lhe ser vadio não tem educação,
bater um contra outros, cortar um com outros, como lutas de galos.
Como assim que vocês quererem arguer nação?

Mãe, isto é que futuro para crianças
em novo nação Timor Lorosae?
Se futuro como assim mesmo talvez
então eu quero ser malae.


Afonso Busa Metan (poeta timorense)

1.6.09

Punhal na alma... pelas costas



Na vida das esquinas
encontrei esquinas
que me apontaram a vida
que, afinal, estava mesmo
ao dobrar da esquina.
Apesar disso chorei
quando senti o punhal
entrar-me pela alma
sem verter uma gota de sangue
porque esse jazia
sonolento num corpo perdido
na madrugada que anoitecia
sem se lembrar da poesia
que nascera décadas antes
nos córregos sinuosos
de uma saudade castigadora
bem mais lancinante
do que o punhal que me feriu
a alma e que, mais uma vez,
foi espetado pelas costas.

Orlando Castro (poeta angolano)