29.9.09


Catavento muma ilha do Atlântico




- Vento ao norte! - Vento norte,
Que novas trazes de Set?
Inda o domínio da morte,
O reino da escuridão?

- Vento ao oeste! - Vento oeste,
Que novas bebeste em terra?
Ainda a desunião,
As lutas, a fome, a guerra?

- Vento ao sul! - Vento do sul,
Porque tens sabor agreste?
Ainda alguma criança
Faleceu, hoje, de peste?

- Vento ao leste! - Vento leste,
Que tens a morte de Set,
Nasceu alguma esperança?
O barco pode singrar?
Tem rumo-de-só-amar?...


António Cardoso (poeta angolano)

16.9.09

Qualquer Coisa de Paz

Bryony Stretched Canvas Print by Daniel Phill

Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.

Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área

de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.

Fernando Echevarría (poeta timorense)




14.9.09

Dois poemas das redes



I


Do polegar que faz o passo
Do rumo imóvel
As redes crescem

Também de mim e dos meus rumos
as redes entrelaço.

E as malhas
nascem dos nossos dedos
Prisões de frutos
Que o mar nos nega.


II


A lavra do mar era grande
Mas as malhas
Não tinham a largura dos seus grãos

Colhiam corpos
que vinham à tona de um sonho hebo.

Quando as mabangas
prenderam os pés das redes na lama do mar
então
As redes d’água sentiram
a espessura dos seus cabelos crespos.

Arnaldo Santos (poeta angolano)

trova



Coração que bate-bate...
Antes deixes de bater!
Só num relógio é que as horas
Vão passando sem sofrer.

Mário Quintana (poeta brasileiro)

12.9.09




É doce envelhecer quando o que avança
e ir recrudescendo a inteligência.
Entra-lhe o mundo no vagar. Decanta
o seu volume inteiro de contenda.
Transporta-se. E entrega na palavra
a inteligível criação. Entrega
o desenvolvimento. O pulso. A trama
que ajustam sua refundacão aberta.
E a docura de se ir vendo alarga
o envelhecimento a quase ciência.
Uma ciência onde o enigma é alma.
E onde o mundo contunde. Insiste. E pesa.

Fernando Echavarria (poeta timorense)



11.9.09

O Luar



O luar,
é a luz do Sol que está sonhando

O tempo não pára!
A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...

...os verdadeiros versos não são para embalar,
mas para abalar...

A grande tristeza dos rios é não poderem levar a tua imagem...

Mário Quintana (poeta brasileiro)

3.9.09

O meu amado


O meu amado chega e enquanto despe as sandálias de couro
marca com o seu perfume as fronteiras do meu quarto.
Solta a mão e cria barcos sem rumo no meu corpo.
Planta árvores de seiva e folhas.
Dorme sobre o cansaço
embalado pelo momento breve da esperança.
Traz-me laranjas. Divide comigo os intervalos da vida.
Depois parte.
Deixa perdidas como um sonho as belas sandálias de couro.


Ana Paula Ribeiro Tavares (poetisa angolana)