29.11.09

Cântico de alforria

ontheroadtosantiago.jpg image by joannboma_2007

Vem, segura a minha mão
iniciemos um roteiro amargo de peregrinação:
pelo trilho batido do fundo da floresta
partamos até ao mar cruel
o mar sem fim, veículo da nossa servidão.

Não, não feches os olhos à tragédia
olha os negreiros ancorados na baía da nossa desgraça
os nossos irmãos acorrentados
como gado, sorvidos pelo negrume dos bojos insaciáveis
semelhando ventres de deuses bárbaros.
Virgínia, Alabama
Mississipi
sangue vermelho
suor de negro branqueando algodão
Cuba, Brasil
Martinica
mais sangue vermelho
suor de negro movendo engenhos de açúcar.

Eis o nosso povo sacrificado
eis a nossa gente
a nossa gente transportando mares e mares
carne da nossa carne
sangue do nosso sangue disperso pelo Mundo.

Vem, segura a minha mão serena
em passo firme caminhemos até à orla do mar algoz
escutemos as vozes perdidas na profundeza dos abismos
os ecos dos gritos abafados
congelados em pedaços de nossa carne ensangüentada
congelados em miríades de búzios abandonados ao sabor das ondas.

Vem, irmão, seca as lágrimas nas pupilas
toma a minha mão amiga
percorramos o mesmo trilho batido do fundo da floresta
na jornada de regresso que nosso povo não caminhou
e à volta da árvore milenar à beira do caminho
saudemos a alforria ansiada pela nossa geração.

Joffre Rocha (poeta angolano)

Cântico de alforria

ontheroadtosantiago.jpg image by joannboma_2007

Vem, segura a minha mão
iniciemos um roteiro amargo de peregrinação:
pelo trilho batido do fundo da floresta
partamos até ao mar cruel
o mar sem fim, veículo da nossa servidão.

Não, não feches os olhos à tragédia
olha os negreiros ancorados na baía da nossa desgraça
os nossos irmãos acorrentados
como gado, sorvidos pelo negrume dos bojos insaciáveis
semelhando ventres de deuses bárbaros.
Virgínia, Alabama
Mississipi
sangue vermelho
suor de negro branqueando algodão
Cuba, Brasil
Martinica
mais sangue vermelho
suor de negro movendo engenhos de açúcar.

Eis o nosso povo sacrificado
eis a nossa gente
a nossa gente transportando mares e mares
carne da nossa carne
sangue do nosso sangue disperso pelo Mundo.

Vem, segura a minha mão serena
em passo firme caminhemos até à orla do mar algoz
escutemos as vozes perdidas na profundeza dos abismos
os ecos dos gritos abafados
congelados em pedaços de nossa carne ensangüentada
congelados em miríades de búzios abandonados ao sabor das ondas.

Vem, irmão, seca as lágrimas nas pupilas
toma a minha mão amiga
percorramos o mesmo trilho batido do fundo da floresta
na jornada de regresso que nosso povo não caminhou
e à volta da árvore milenar à beira do caminho
saudemos a alforria ansiada pela nossa geração.

Joffre Rocha (poeta angolano)

27.11.09

Canção do navio negreiro



Depois da chuva
os meninos em bando
largavam a lagoa
vinham brincar a navegação
Do pequeno porto
saíam então gasolinas dongos
navios de grande calado até
feitos uns de bimba
mafumeira
outros de tampa
de cartão.
Vovô Bartolomeu
gostava de parar
a olhar esses navios
como que em maravilha
estivesse vendo
sei lá
um mar todinho verdade.
Um dia Juca Mulato
lhe procurou
que barco era esse
navegando ao largo
com formigões na proa
e grandes velas
pandas.
«Esse - disse o velho coçando
o queixo - é mesmo
navio negreiro.

João Maria Vilanova (poeta angolano)

Regresso



Andam no ar
Poemas negros
De cor amarga
Misturados à voz rouca
Dos camiões.
Desertas
Frias
Despidas
As cubatas esperam:
Mulheres e homens,
Nas cubatas,
Vozes
Riem
Escutam
Choram
Histórias iguais a muitas.

Nalgumas
O pranto
Inda é maior.

Costa Andrade (poeta angolano)

26.11.09

Poema panfletário



Duras serão as pedras no chão que pisaremos.
Por serem duras é que abandonei
Os caminhos movediços
Deste mundo em agonia...

Suaves serão as palavras que falaremos.
Por serem suaves é que abandonei
Os caminhos movediços
Deste mundo em agonia...

Pedras e palavras: certas, necessárias
Duras, suaves e seguras.
E uma casa nova.
E caminhos novos de alegria...


António Cardoso (poeta angolano)




25.11.09

O poema que te não sei fazer



Tenho um poema todo negro no cérebro.
Um sabor a sangue
Do poema vermelho da boca.
Uma ânsia louca e branca
Do poema róseo
Que me ofereces sôfrega e eterna
Ao artista que sou.

A!, fora eu mágico
E com esta sinfónica paleta
Musicar-te-ia o poema
Que fizesse de ti a rainha
De um tão pobre escravo-poeta.



António Cardoso (poeta angolano)

24.11.09

Oh Calcutá



Teus pássaros
oh Calcutá

voam dos beirais em bandos
voláteis num alvoroço
de gritos roucos quase

humanos
contra a vidraça

Teus pássaros
oh Calcutá

um deus búdico nu
e sentado nos devolveu
num gesto vago

ausente solto
do nada

David Mestre (poeta angolano)

21.11.09

Blues




Tua voz desliza como um pássaro aberto na lâmina do dia
ilha que se levanta e voa a partir do Sol
lamento gritado da floresta por sua gazela perdida
choro grande do vento nas montanhas
ao nascimento de um escravo mais na história do vale

Tua voz vem de dentro da cidade
de todas as ruas bairros e leitos da cidade onde houver
um calor de pernas
contar o silêncio das horas guardadas a soco no sarilho
dos ventres
com um jazzman a assobiar na escuridão dos pares
a memória ácida do chicote
nos porões do Mundo

David Mestre (poeta angolano)

20.11.09

Arte poética



Que erosão
no choque genésico das marés
de encontro às pedras habitadas.

Cai areia na areia.

Assim o gasto da palavra
limando os duros conformismos
libertando as verdades mais remotas
tão necessárias ao fruir dos gestos.


João Maimona (poeta angolano)

19.11.09

Frutos



Que frutos feios os da Europa:
Não têm nome, nem têm cor,
Não tem cheiro, nem sabor.

Maracujá maboque
Abacate sapessape

Soam redondos na boca,
Cheiram nos olhos e na memória

Sôfrega,
Sôfrega...


António Cardoso (poeta angolano)

O homem que vinha ao entardecer



(Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)


Falava com devagar, ajeitando as
palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.

Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)
Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava
que doía.


José Eduardo Agualusa (poeta angolano)

Escrevemos Docemente


Iris Nine Patch Art Print by Don Li-Leger

Escrevemos docemente. Se a figura
sobe de estar tão funda a essa mesa
é que escrever se lembra. E só da altura
de se lembrar percorre a linha acesa

a ponta de escrever, que traça a pura
forma de rosto que abre na tristeza.
E a tristeza ilumina de escultura
penumbras de volumes com que pesa.

Por isso é docemente que da linha
de estar ali aonde sempre esteve
aparece figura de rainha

que sempre foi e agora só se escreve.
E escrevermos é como se na vinha
o sol se iluminasse. E fosse breve.

Fernando Echevarría (poeta timorense)



18.11.09

Poema do regresso



Quando eu voltar da terra do exílio e do silêncio,
não me tragam flores.

Tragam-me antes todos os orvalhos,
lágrimas de madrugadas que presenciam dramas.
Tragam-me a fome imensa de amor
e o queixume dos sexos túrgidos na noite constelada.
Tragam-me a noite longa de insônia
com mães chorando de braços vazios de filhos.

Quando eu voltar da terra do exílio e do silêncio,
Não, não me tragam flores...

Tragam-me apenas, isso, sim,
o último desejo dos heróis tombados ao amanhecer
com uma pedra sem asas na mão
e um fio de cólera a esgueirar-se dos olhos.

Joffre Rocha (poeta angolano)

Os rios atónitos



(Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)


Há palavras a dormir sobre o seu largo
assombro
Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo
é como se houvesse pronunciado os próprios rios

Ou seja, as águas
pesadas de lama, os peixes todos e os perigos
inumeráveis
O musgo das margens, o escuro
mistério em movimento.

Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre
Lento
em tua boca.

Dizes Quanza
e o ar se preenche de perfumes perplexos.

E dizes Congo
e onde o dizes há grandes aves
e súbitos sons redondos e convexos.

E dizes Quanza, ou dizes Congo
e sempre que o dizes acorda em torno
um turbilhão de águas:
a vida, em seu inteiro e infinito assombro.


José Eduardo Agualusa (poeta angolano)

17.11.09

Vieram muitos...



"A massambala cresce a olhos nus"

Vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.

Vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranqüilas águas do lago.
Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.

Ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a olhos nus.

Partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeira
levaram o gado gordo e as raparigas.


Ana Paula Tavares (poetisa angolana)
in O lago da lua

14.11.09

Canto de nascimento



Aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.

As mãos criam na água
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças deleite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.
Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio

enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite.


Ana Paula Tavares (poetisa angola)
(in O lago da lua)

12.11.09

A casa



Aqui projectei a minha casa:
alta, perpetua, de pedra e claridade.
O basalto negro, poroso
viria da Mesquita.
Do Riboque o barro vermelho
da cor dos ibiscos
para o telhado
Enorme era a janela e de vidro
que a sala exigia um certo ar de praça.
O quintal era plano, redondo
sem trancas nos caminhos.
Sobre os escombros da cidade morta
projectei a minha casa
Recortada contra o mar.
Aqui.
Sonho ainda o pilar –
uma rectidão de torre, de altar.
Ouço murmúrios de barcos
na varanda azul
E reinvento em cada rosto fio
a fio
as linhas inacabadas do projecto.

Conceição Lima (poetisa sãotomense)

3.11.09

Proposta



Apaguem os canaviais, os cacauzais, os cafezais
Rasurem as roças e a usura de seus inventores
Extirpem a paisagem da verde dor de sua íris
E eu vos darei uma narrativa obliterada
Uma esparsa nomenclatura sedenta de heróis.

Conceição Lima (poetisa sãotomense)


2.11.09

Eu e os passeantes



Passa um inglesa,
E logo acode,
Toda supresa:
What black my God!

Se é espanhola,
A que me viu,
Diz como rola:
Que alto, Dios mio!

E, se é francesa:
Ó quel beau negre!
Rindo para mim.

Se é portuguesa,
Ó Costa Alegre!
Tens um atchim!

Costa Alegre (poeta sãotomense)