30.1.10

A graça triste



Só me resta agora

Esta graça triste
De te haver esperado
Adormecer primeiro.
Ouço agora o rumor
Das raízes da noite,
Também o das formigas
Imensas, numerosas,
Que estão, todas, corroendo
As rosas e as espigas.

Sou um ramo seco
Onde duas palavras
Gorjeiam. Mais nada.
E sei que já não ouves
Estas vãs palavras.
Um universo espesso
Dói em mim com raízes
De tristeza e alegria.
Mas só lhe vejo a face
Da noite e a do dia.

Não te dei o desgosto
De ter partido antes.
Não te gelei o lábio
Com o frio do meu rosto.
O destino foi sábio:
Entre a dor de quem parte
E a maior — de quem fica —
Deu-me a que, por mais longa,
Eu não quisera dar-te.

Que me importa saber
Se por trás das estrelas
haverá outros mundos
Ou se cada uma delas
É uma luz ou um charco?
O universo, em arco,
Cintila, alto e complexo.
E em meio disso tudo
E de todos os sóis,
Diurnos, ou noturnos,
Só uma coisa existe.

É esta graça triste
De te haver esperado
Adormecer primeiro.

É uma lápide negra
Sobre a qual, dia e noite,
Brilha uma chama verde.

Cassiano Ricardo (Brasil)

29.1.10

A sentinela vinha



A sentinela vinha. Cruzava os pés à porta
do meu jardim.

A sentinela da porta
das portas do meu jardim vinha
à hora primitiva.

Chegava. Cuspia na minha relva.
Como para render homenagem
ao meu sangue. É tão fácil
fazer a retrospectiva!

A sentinela vinha. Cruzava os pés à porta
do meu jardim. Cuspia na minha relva.
Enumerava as portas do jardim.
Perdido em declamações que acabavam
à porta das portas do jardim
não recordava os seu filhos. Suas trevas.
Seus caminhos.

Era o seu poema. A porta das portas do jardim.

João Maimona (poeta angolano)

25.1.10

Ainda não fiz um poema de amor





Falta-me fazer o poema de amor
Consciente,
Sentindo os pés bem firmes na terra
E o sexo como a semente
Que promete em breve ser uma flor.

Falta-me fazê-lo
E mandá-lo à noite
Quando o corpo dela nu
Se mirar nos vidros da janela
Fugindo das roupas que o prendem.

Depois colher a flor
Como a ave que leva no bico
Uma palha para o ninho,
Ou como o viajante sequioso
Que bebe na fonte do caminho...


António Cardoso (poeta angolano)

19.1.10

Fácil é dar um beijo.



Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma,
sinceramente, por inteiro.

Carlos Drummond de Andrade (poeta brasileiro)

13.1.10

A mãe e a irmã



A mãe não trouxe a irmã pela mão
viajou toda a noite sobre os seus próprios passos
toda a noite, esta noite, muitas noites
A mãe vinha sozinha sem o cesto e o peixe fumado
a garrafa de óleo de palma e o vinho fresco das espigas
[vermelhas
A mãe viajou toda a noite esta noite muitas noites
[todas as noites
com os seus pés nus subiu a montanha pelo leste
e só trazia a lua em fase pequena por companhia
e as vozes altas dos mabecos.
A mãe viajou sem as pulseiras e os óleos de proteção
no pano mal amarrado
nas mãos abertas de dor
estava escrito:
meu filho, meu filho único
não toma banho no rio
meu filho único foi sem bois
para as pastagens do céu
que são vastas
mas onde não cresce o capim.
A mãe sentou-se
fez um fogo novo com os paus antigos
preparou uma nova boneca de casamento.
Nem era trabalho dela
mas a mãe não descurou o fogo
enrolou também um fumo comprido para o cachimbo.
As tias do lado do leão choraram duas vezes
e os homens do lado do boi
afiaram as lanças.
A mãe preparou as palavras devagarinho
mas o que saiu da sua boca
não tinha sentido.
A mãe olhou as entranhas com tristeza
espremeu os seios murchos
ficou calada
no meio do dia.


Ana Paula Tavares (poetisa angolana)
in Dizes-me coisas amargas como os frutos

9.1.10

Entre os lagos



Esperei-te do nascer ao pôr do sol
e não vinhas, amado.
Mudaram de cor as tranças do meu cabelo
e não vinhas, amado.
limpei a casa, o cercado
fui enchendo de milho o silo maior do terreiro
balancei ao vento a cabaça da manteiga
e não vinhas, amado.
Chamei os bois pelo nome
todos me responderam, amado.
Só tua voz se perdeu, amado,
para lá da curva do rio
depois da montanha sagrada
entre os lagos.

Ana Paula Tavares (poetisa angolana)
in Dizes-me coisas amargas como os frutos

6.1.10

O tempo seca o amor



O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.

Cecília Meireles (poetisa brasileira)


3.1.10

Sou uma filha da natureza



"Sou uma filha da natureza:
quero pegar, sentir, tocar, ser.
E tudo isso já faz parte de um todo,
de um mistério.
Sou uma só... Sou um ser.
E deixo que você seja. Isso lhe assusta?
Creio que sim. Mas vale a pena.
Mesmo que doa. Dói só no começo."

Clarice Lispector (poetisa brasileira)