30.4.10

Romance de Tomasinho Cara-Feia


Farto de sol e de areia
Que é o mais que a terra dá,
Tomasinho Cara-Feia
vai prá pesca da baleia.
Quem sabe se tornará?

Torne ou não torne, que tem?
Vai cumprir o seu destinho.
Só nha Fortunata, a mãe,
Que é velha e não tem ninguém,
Chora pelo seu menino.

Torne ou não torne, que importa?
Vai ser igual ao avô.
Não volta a bater-me à porta;
Deixou para sempre a horta,
que a longa seca matou.

Tomasinho Cara-Feia
(outro nome, quem lho dá?),
farto de sol e de areia,
foi prá pesca da baleia.

— E nunca mais voltará!


Daniel Filipe (Cabo Verde)

29.4.10

Soneto da Fidelidade



De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes (Brasil)


A primeira vez que entendi



A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.

Affonso Romano de Sant'Anna (Brasil)

27.4.10

Maternidade



Dentro de mim,
é que trago
a voz que se não cala,
e a força
que não mais se apaga...

Dentro de mim
é que o caudal-anseio alaga,
e correndo
há-de ir, de mar em mar,
levar
ao fim da terra,
um sinal de infinito...

Dentro de mim,
do meu sangue nutrida,
e sustentada,
é que a voz não é soluço
mas grito!

Dentro de mim,
eco de paz ou de alerta,
dentro de mim,
é que a eternidade é certa!...

Alda Lara (Angola)


Um vento - erosão do tempo

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A palavra dorme
no flanco das serras
faz nuvens de tempo
e cava ribeiros
com os caudais do som.

A palavra medra
no fundo das covas
exala vapores
desfaz-se em poeira
de cáustica cor
adere às camadas
mais finas da pele
desfaz as mãos dadas
do amor indeciso
e embala crianças
negras que arrefecem.

A palavra invade
o pudor das grutas
as veias dos bosques
o céu das lagoas.
A palavra esculpe
nas furnas de grés
a fresca ventura
de meninos nus.

A palavra está
na cama dos fósseis:
dorme há milhões de anos
nas asas do raio
que petrificou
a aurora dos dias.

A palavra roda
no selim da infância:
marítima luz
ladrilho de sal
um disco que disca
com o centro na cinta
e amputa a paisagem
ao nível da idade.

Ruy Duarte de Carvalho (Angola)

Quando eu morrer


Quando eu morrer, Amor, quero que venhas ao pé de mim
e te sentes na cama como fazias antigamente.
Afasta-me os cabelos e olha-me nos olhos. Não me beijes
porque beijar um morto causa repugnância
e eu não quero que o nosso último encontro seja amargurado.

Depois, hás-de falar. Como outrora o fazias,
ao morrer melancólico da tarde,
quando vinhas e ficávamos a fitar-nos fixamente,
como se a Vida parasse para além dos nossos olhos,
e o mundo fosse o quarto e nós dois a humanidade inteira.

Hás-de falar, Amor. Não importa de quê
desde que o faças carinhosamente baixo...
Dir-me-ás qualquer coisa. Qualquer coisa, mas que sejas tu a dizê-la,
e eu possa ouvir-te, como outrora, extático e feliz,
mudamente, inexplicàvelmente deslumbrado...

E ouve, Amor, não chores. Que eu quero que no último encontro
o teu rosto conserve a beleza dos encontros antigos.
Olha-me nos olhos e lastima-me interiormente.
Eu estarei presente e, de algum modo, ouvirei a prece
que hás-de rezar no silêncio cálido do quarto.

Daniel Filipe, 1946

20.4.10

Canto e lamentação na cidade ocupada


5.

É preciso cantar, é preciso sorrir,
encher a escuridão com árvores sem nome.

Estamos sós no mistério dos nossos quinze anos.
A tormenta passou. A comida arrefece.

A viagem sem história concede-nos a calma:
serenos existimos, ocultos, dominados.

Só o navio de fogo navega sobre as águas
(ponto negro no mapa que não teremos nunca).

No silêncio da espera, murmuramos palavras,
desfraldamos bandeiras, corrompemos o sonho.

Desejamos o amor, completo e derradeiro
como o cheiro do mosto nos lagares de Setembro

— mas olhamos o sexo e não compreendemos
a noite preenchendo um corpo de mulher.

E pura que ela fosse! Desfar-se-ia em bruma...
De mãos vazias vamos para o sono comum.

Um cavalo na estepe, o nosso vago anseio
marcando-nos temores na impúbera face.

Recolhemos o gesto, a flor primaveril,
o canal dos sentidos debruado de escombros

— e rígidos a planície inútil
com nervuras de sal no rosto imaginado.


Daniel Filipe (Cabo Verde)

13.4.10

Além da Terra, além do Céu,



Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Carlos Drummond de Andrade (poeta brasileiro)

O tocador de clarineta




Quando ouvires o pássaro
Cantar em frente do teu quarto,
Naturalmente em vão,
não penses
que sou eu que aí vim tocar,
não.

Quando o vento disser,
ao teu ouvido de mulher
uma palavra
branca e fria como a cerração,
não penses que o vento fui eu,
não.

Quando receberes
uma carta anônima, trazida
por secreta mão
- quem será que assim me acusa? -
eu é que não serei,
não.

Quando ouvires, porém, no escuro,
a goteira caindo
sobre o triste chão, aí, então,
serei eu que estou batendo
na pedra
do teu coração.

Cassiano Ricardo (Brasil)

11.4.10

Canto e lamentação na cidade ocupada


4.

Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado, acariciarlhe
os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor. Parto amanhã.

Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo doce e
leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.

Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos contornos a
que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.

Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria e apesar
disso murmurar: Somos dois e exigimos.

Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as
etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.

Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante, entre
ruídos de música e interferências aladas.

Não basta ser feliz.

Não basta a Primavera.

Não basta a solidão.


Daniel Filipe (cabo Verde)

10.4.10

Canto e lamentação na cidade ocupada


3.
Não fora o grito a faca
de súbito rasgando
a fronteira possível
Não fora o rosto o riso
a serena postura
do cadáver na praia

Não fora a flor a pétala
recortada em vermelho
o longínquo pregão
o retrato esquecido
o aroma da pólvora
a grade na janela

Não fora o cais a posse
do nocturno segredo
a víbora o polícia
o tiro o passaporte
a carta de Paris
a saudade da amante

Não fora o dente agudo
de nenhum crocodilo

Não fora o mar tão perto
Não fora haver traição


Daniel Filipe (Cabo Verde)

7.4.10

Véspera

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Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.

Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.

Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?

Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. É fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.

Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!

Contempla este jardim, os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio
e perseguem o sol no dia findo.

E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreo, são mais leves do que brisa.

E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.

Olha, amor, o que fazes deses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem-palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.

Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.

Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.

Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!

Não ensaies demais as tuas vítimas
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.

Carlos Drummond de Andrade (Brasil)

5.4.10

Kalumba




Ela veio do mato
e confundiu
as estrelas com as luzes da cidade

Na cidade
os seus olhos eram duas estrelas

E no coração de muitos homens
não brilhou outro sol
se não a linda filha de soba
que viera das terras da Lunda
e morava no muceque Sambizanga

Mas os seus olhos confusos
descobriram na cidade
um mundo diferente
onde a sua alma era aferrolhada
nos navios que levaram do Congo
os homens sobre o mar
Kalunga! Morte

Aquela cidade era um mar
era a sua morte
E na cidade brilhante
que é um mundo, um mar
Kalunga!
onde em cada rua partem navios
para longe de cada homem
perdeu duas estrelas –

Os olhos
da linda filha dum soba da Lunda.


Agostinho Neto (Angola)

2.4.10

Papagaio gaio



Papagaio insensato,
que te fêz assim?
Que não sabes falar
brasileiro
e já sabes latim?

Papagaio insensato,
ave agreste, do mato,
que diabo em ti existe,
verde-gaio,
que nunca estás triste?

Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?

Papagaio triste,
papagaio gaio,
quem te fez tão triste
e tão gaio,
triste mas verde-gaio?

Papagaio gaio,
quem te ensinou,
em mais
do mato, a repetir,
papagaio,
tanto nome feio?

Gaio, papagaio,
gaio, gaio, gaio,
que repetes tudo...
Antes fosses
um pássaro mundo.

Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?

Papagaio, gaio.
Gaio, gaio, gaio.

Cassiano Ricardo (Brasil)

1.4.10

Desejo

Male Nude Sitting Photographic Print

Aterra-me nos lábios
Com teus beijos
E deixa-me voar nas asas do sonho
Iludido ainda por viver…

Navega-me
O corpo impuro
Do meu casco imaturando,
Com as ondas crespas e revoltas
Do teu negro e revolto cabelo.

Viaja por mim
Teu corpo em carícias
De voltas ao Mundo:
Sejam abraços tão fundos
Sem nunca lhes medir o fim!

António Cardoso (Angola)