16.9.10

Balada da flor de espuma



Descalça vai pro mercado
Don’ Ana pelas barrocas
vai formosa e vai segura...

Com quatro notas de cem,
em alegre sinecura
leva na boca o refrém
duma canção de ternura.
Vai formosa, e tão segura
Don’ Ana pelas barrocas...

Don’ Ana foi ao mercado,
foi ao mercado do Prenda
com quatro notas de cem
e com uma fome tremenda!
Com seu passinho estugado,
descalça pelas barrocas,
foi de quitanda em quitanda
Don’ Ana pelo mercado,
depressa, como quem anda
a cogitar no almoço.
Pelo mercado do Prenda,
foi num alegre alvoroço
com quatro notas de cem
florindo-lhe a mão pequena.

Mas de quitanda em quitanda.
saltando daqui para além
– com que surpresa, coitada!
com quatro notas de cem
Don’ Ana não comprou nada!

Cada vez mais lentamente,
foi de quitanda em quitanda
olhando p’ra toda a gente.
E as quatro notas de cem,
quatro pétalas de espuma
como uma coisa indecente,
como flor de frustração,
foram murchando uma a uma...

Descalça pelas barrocas,
Don’ Ana voltou p’ra casa
devagar, como quem chora.
E as quatro notas de cem
que Don’ Ana deitou fora
com o desgosto de as ter,
cantam ainda o refrém
numa vozinha cansada:

“mal-me-quer
bem-me-quer,
muito-pouco,
ou nada...”

Henrique Abranches (Angola)

3.9.10

Confronto



Bateu Amor à porta da Loucura.
"Deixa-me entrar - pediu - sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu minha paixão."

A Loucura desdenha recebê-lo,
sabendo quanto Amor vive de engano,
mas estarrece de surpresa ao vê-lo,
de humano que era, assim tão inumano.

"E exclama: "Entre correndo, o pouso é teu.
Mais que ninguém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu,

enquanto me retiro, sem destino,
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de amar."

Carlos Drummond de Andrade (Brasil)