29.11.10

Poema implícito



O que a vida nos faz
supor esteja atrás dos objetos.
A presença do oculto,
o que a fotografia não nos diz.
As coisas
que não chegou a me dizer Lenora
a que foi
morar no reino dos pássaros mudos.
E que mais me feriram justamente
porque não chegaram a ser ditas.
Os gritos, esculpidos na boca
das figuras de pedra.
Tudo o que é implícito.
Tudo o que é tácito.

Não gosto dos explícitos
Gosto dos tácitos.
Daqueles que me dizem tudo
sem me dizer uma única palavra.
Não amo os lógicos,
os socráticos.
Amo os lunáticos,
os de cabeça virgem
e lírica.

Não amo os pássaros que cantam,
amo os pássaros mudos.

Cassiano Ricardo (Brasil)

23.11.10

Emigrante



O drama começa no momento
em que nasce a ideia de "partir"
Aí param os sonhos
E começam os pesadelos.

Emigrante!

Esta é a alcunha que te deram.
A tragédia que isso acarreta
consome anos de existência
aniquilando lentamente
castelos edificados de ilusões
que dos sonhos ainda restam.

Emigrante!

Fantasia dos que ficam
Am’’ricas
Alemanhas
Franças
e outros mundos sempre iguais...

Emigrante!

Suportar esse título tão honradamente
ter que comer o pão que o diabo amassou
ser sempre forasteiro em porta alheia...

Sim, emigrante!

Emigrante = sobrevivência
Gritos de alma
ambição amordaçada
desejos frustrados...

VITA BREVIS num copo de vinho
Esquecer as amarguras
Da "Terra Prometida"

Ana Júlia Macedo Sança (Cabo Verde)

Reminiscência




Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
ritmos brasileiros fox mazurcas
E a morna a sublimar paixões
Ao longe na Achada o roncar cadenciado
Dos tambores da Tabanca
No campo de futebol ali pertinho
O Vitória sucumbia perante um Trovadores
Em que o Chabali era o rei
O mundo em guerra
E na terra amaldiçoada
Sem canhões sem Hitler
O povo morria de olhos voltados para o céu
Num gesto clamor secular
Que o hábito tornou ritual
Chuva! Fome! Chuva! Fome!
Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
A sala decorada com bolas pretas
Os ritmos brasileiros a transportar os pares
Para o "Rio de Janeiro cidade maravilhosa"
Mazurcas com passos rigorosamente medidos
E a morna morna no violino crioulo do Djédji
Há muitos anos
Os nazis perderam a guerra
A Tabanca desapareceu
Anatematizada como vergonhosa reminiscência africana
O Chabali morreu
Surgiram outras guerras
Outros tiranos outros ídolos outros ritmos
E na terra amaldiçoada
O ano passado hoje e sempre
O povo continua com os olhos voltados para o céu
Num gesto ritual
Clamor súplice para outros homens e para Deus
Chuva! Chuva! Chuva!

Virgílio Pires (poeta caboverdiano)

21.11.10

Só o Amor



Entre o fumo do cigarro
E o sorriso de uma boca
Nasce o luar
Numa seara de espuma

Quem nunca amou
Como sabe porque se ama?
O próprio dia quando acorda de manhã
Trazendo sementes virgens
Transpondo a face da minha alma
Enche de formas e sons envolventes
A cada passo a esperança que renasce.

Fossem minhas, tudo o que eu amo
As palavras sepultadas na minha boca
Na cadência simétrica dos lábios
O gesto parado ...

Ah! sonhos que partiram
Lembranças que ficaram
Esse fogo aprisionado
Sejam mudos, apagados
E apenas eu a pressenti-los.

Ah! fontes desvairadas
Onde o rumor das águas,
É melodia e amor
Trago comigo o cantar diário
O ritmo de quem possui um elixir.

Ah! orgulho que queima
Dói,
Sangra e até corrói,
Quantas serão precisas
Para estrangular essa fúria
Quantas vozes para segurar
conter essa força?!

Só o Amor

Ana Júlia Macedo Sança (Cabo Verde)

Poesia de Agosto



Foi em Agosto que descobri
O sabor das ondas nos teus olhos
O teu corpo húmido de maresia
Espraiando no perfil moreno do sol,
Todo êxtase viril que de ti vinha.
Foi em Agosto que descobri em ti
O azul matizado do céu,
O colorido do poente brincando em mim,
Todo o sonho dos peixes
Fechados nas nossas mãos.
Sonho porque te quero sonhar.
E deixa-me dizer-te, porque senão choro,
Eu sou o espaço...
Uma dadiva...
Vem porque é Agosto
Eu quero cantar-te...

Ana Júlia Macedo Sança (poetisa caboverdiana)

Testamento para o dia claro


Quando do fundo da noite vier o eco da última palavra submissa
E a patina do tempo cobrir a moldura do herói derradeiro,
Quando o fumo do último ovo de cianeto
Se dissipar na atmosfera de gases rarefeitos
E a chama da vela da esperança
Se acender em sol na madrugada do novo dia

Quando só restar na franja da memória
Lapidada pelo buril dos tempos ácidos
A estria da amargura inconsequente
E a palavra da boca dos profetas
Não ricochetear no muro do concreto
Da negrura sem fundo de um poço submerso
Sejais vós ao menos infância renovada da minha vida
A colher uma a uma as pétalas dispersas
Da grinalda dos sonhos interditos.


Arnaldo França (poeta cabo verdiano)

Mar

´

Arménio Vieira (Cabo Verde)

Canto final ou Agonia duma noite infecunda



Como a flor cortada rente e desfolhada
ou os olhos vazados da criança
e o seu fio de prano tênue e impotente
assim a noite caminha com os astros
todos em vertigem
até que se atinge o ponto da mudez
a pesada mó triturando a sílaba
a garganta com as cordas dilaceradas
e uma lâmina ácida e pontiaguda
enterrada ao nível da carótida

Entenda-se isto como noite
e o seu transe derradeiro
tanto assim que a flor desfeita
não embala o coração do poeta
oh não
porque a flor defunta
se voa
não sobe nunca
e só dura
o espaço breve duma nota

Assim o vento se detém imóvel
como se da flauta
falhando súbito
na boca do poeta
ficasse o hiato
ou a saliva
de um tempo devassado
por insectos cor de cinza

A voz suspensa e negada
cede a vez à letra amorfa
inserida no silêncio
com seu peso de chumbo e olvido acaba o poema
e um ponto final selando tudo.

Arménio Vieira (poeta caboverdiano)

Mané Fú



Louco que povoou a minha infância
Que contava histórias maravilhosas
Histórias de Branca Flor
De bruxas e de princesas
Mané Fú
Mané de Deus
Que tinha o corpo todo preto
Mas as palmas das mãos brancas
Porque as sextas-feiras subia aos céus
E ia banhar os anjos
Mané Fú
Mané de Deus
Outras histórias me empolgam hoje
Histórias de crianças famintas
(Lembro-me do filho da Violante
Que comia a cal das paredes)
Histórias de velhos abandonados
(Como aquele que morreu a chorar
No Pavilhão de Alienados
E não era doido)
Histórias de prostitutas
(Ah! humilhadas amigas)
Histórias tristes nunca divulgadas

Virgílio Pires (poeta caboverdiano)

A crioula



A crioula que meus olhos beijaram a medo
Perdeu-se na confusão de um porto francês
Ela sorria continuamente,
Erguendo no seu riso uma canção extraordinária.
Não foi um romance de amor
Nem mesmo um pequeno segredo entre ambos.
Somente, quando Ela falava ao pé de mim,
Eu sentia um aprazível devaneio
Pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.
Depois,
A Vida separando-nos
A confusão, os ruídos, os braços agitando-se
E o vapor levando para outros mares,
Outros portos,
A graça, o mistério, o perfume e os cantares
Da crioula que meus olhos beijaram a medo
No tombadilho daquele vapor francês.

Luíz Romano (Poeta caboverdiano)

19.11.10

Símbolo



O formato daquele berço foi um símbolo
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.

Navio-berço de menino crioulo
navio-guia que ficou sem ir
"navio idêntico ao navio da nossa derrota parada.

Luíz Romano (poeta caboverdiano)

18.11.10

Juro


Por tua culpa, Mulata,
Meu coração
Anda à toa
Sem saber onde se acoite.
Perdeu-se na escuridão
Dos teus olhos cor da noite.

Por tua culpa, só tua culpa,
Pois sei que foi causa disso
O feitiço
Do teu corpo.

Mas... Deus é grande
E... talvez
Ainda voltes outra vez
A abrasar-te em desejos,
Quianda dos meus amores.

Nesse dia
Hei-de cobrir o teu corpo
Com um vestido de beijos
E um manto de carícias.
Hei-de esmagar contra a minha
A tua boca vermelha.

Será nesse dia, então
Que terei onde me acoite,
Mesmo na escuridão
Dos teus olhos cor da noite.


Aires de Almeida Santos (Angola)

15.11.10

Paris



Numa rua de Paris
Alguém dizia baixinho:
"Lady Ana, chegou a sua vez"
E nas promenades da cidade
Eu via passar o meu tempo
Calmamente
Enquanto seguia de mãos dadas
Com o meu sonho
Via Alexandre O'Neill
passeando uma baguette
debaixo do braço
E Paris eufórica metida
nas suas montras de fantasias
atravessando os boulevards,
O Sena marulhando suas águas turvas
Música e pintura nos parques
Alguém lamenta o choro de Pierrot
exclamando:

"Bonjour tristesse
Tu n'est pas seul
Je suis ta soeur"

Caem gotas dos meus olhos
orvalhando a terra
lembranças virgens do passado
humedecendo meu passado
humedecendo meu semblante parisiense

Ana Júlia Macedo Sança (Cabo Verde)


14.11.10

A rua


Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.

Cassiano Ricardo (BRasil)